| BORIS
FAUSTO
A Formação das Almas , de José
Murilo de Carvalho (Ed. Companhia das Letras) -
Ensaio sobre a construção do imaginário
republicano, com fecunda utilização de
fontes iconográficas e de monumentos.
Borracha na Amazônia , de Barbara Weinstein
(Ed. Hucitec) - Estudo sobre um tema pouco explorado
-a expansão e a crise da borracha na Amazônia
e suas consequências socioeconômicas assim
como políticas.
Os Sertões , de Euclides da Cunha
(Ed. Francisco Alves) - Não é um livro
de história, mas uma verdadeira introdução
a um "outro Brasil", via episódio de
Canudos. A própria ambiguidade de Euclides, entre
a "civilização" e a "barbárie",
tornou-se um importante caminho para a reflexão
sobre o "dualismo" brasileiro.
O Regionalismo Gaúcho , de Joseph.
L. Love (Ed. Perspectiva) - Reconstrução
da sociedade e sobretudo da política do Rio Grande
do Sul, entre 1882-1930. Abriu caminho para se rever
o papel daquele Estado no âmbito da política
do "café-com-leite".
Política e Parentela na Paraíba
, de Linda Lewin (Ed. Record) - Monografia inovadora,
concentrada no período da Primeira República,
lançando luz sobre uma oligarquia de base familiar.
Coronelismo, Enxada e Voto , de Victor Nunes
Leal (Ed. Nova Fronteira) - Clássico sobre
o tema, no qual o autor utiliza proveitosamente sua
formação jurídica. Relativizou
a importância do município na constituição
do coronelismo, enfatizando o papel das unidades estaduais.
Coffee, Contention and Change in the Making of Modern
Brazil , de Mauricio Font (Cambridge University
Press) - Monografia que critica teses tradicionais,
como a da associação entre o PRP e os
interesses cafeeiros, chamando a atenção
para a diversificação das atividades econômicas
em São Paulo durante a Primeira República.
Estudo sobre as Origens do Empresariado Paulista
, de Warren Dean - Enfatiza o papel dos grandes
fazendeiros e do comércio exportador no início
da industrialização.
Bases do Autoritarismo Brasileiro , de Simon
Schwartzman (Ed. Campus) - Estudo sociológico
que busca desvendar as raízes históricas
do autoritarismo, criticando a tese da dominação
política de São Paulo na Primeira República.
Seminário Internacional sobre a Revolução
de 30 , promovido pelo CPDOC (Centro de Pesquisa
e Documentação de História Contemporânea
do Brasil) - Publicação de vários
textos sobre os anos 30 no Brasil, destacando-se, entre
outros, os de Angela de Castro Gomes (classes populares),
Gerson Moura (relações internacionais)
e José Murilo de Carvalho (Forças Armadas).
Nota: Deixei de mencionar alguns livros importantes,
por não se enquadrarem na cronologia escolhida.
Dentre eles, cito Gilberto Freyre, "Casa-Grande
& Senzala"; Celso Furtado, "Formação
Econômica do Brasil"; Raymundo Faoro, "Os
Donos do Poder"; Florestan Fernandes, "A Integração
do Negro na Sociedade de Classes".
ANGELA DE CASTRO GOMES
À Margem da História da República
(1981), de Vicente Licínio Cardoso (org.)
(Ed. UnB) - Livro histórico, organizado por um
engenheiro positivista, reunindo ensaios produzidos
pelos mais representativos intelectuais atuantes nas
primeiras décadas da República: Alceu
Amoroso Lima, Oliveira Viana, Ronald de Carvalho, Pontes
de Miranda etc. É um precioso balanço
crítico, realizado por ocasião das comemorações
do centenário da Independência, cuja primeira
edição é de 1924.
Coronelismo, Enxada e Voto (1975), de Victor
Nunes Leal (Ed. Nova Fronteira) - Um clássico
da literatura sobre a Primeira República que
muito extrapola este período, colocando sob enfoque
questões fundamentais para o exercício
da dominação política em nosso
país. Um grande número de trabalhos foram
produzidos desde que o autor, em 1949, defendeu sua
interpretação. Todos lhe são tributários,
reconhecendo seu pioneirismo e agudeza de análise.
A Revolução de 30 (1970), de Boris
Fausto (Ed. Companhia das Letras) - Análise
historiográfica que retoma e aprofunda as críticas
à concepção, vigente à época,
de que os conflitos da Primeira República e a
própria Revolução de 30 adviriam
do enfrentamento entre setor agroexportador e setor
urbano-industrial. Com sólida pesquisa histórica,
o autor impõe uma nova interpretação,
centrada nos conflitos intra-oligáquicos fortalecidos
por movimentos militares, que não mais abandonaria
a produção de textos sobre o período
republicano.
O Brasil Republicano (1975-86), de Boris Fausto
(org.), (volumes 8, 9, 10 e 11 da "História
Geral da Civilização Brasileira) (Ed.
Bertrand) - Grande obra, reunindo numerosos colaboradores
de formações acadêmicas diferenciadas,
que procura abordar temas e questões da história
política, econômica, social e cultural
da República no Brasil. Referência obrigatória
para os que desejam conhecer o período, tanto
em termos históricos quanto historiográficos.
A Formação das Almas (1990), de
José Murilo de Carvalho (Ed. Companhia
das Letras) - Autor com ampla produção
sobre o período imperial inova a literatura que
analisa a República, colocando como seu objeto
a produção de símbolos e o estudo
do imaginário político. É excelente
exemplo da renovação da história
política no Brasil, do trabalho interdisciplinar
e do uso de fontes ainda hoje pouco frequentadas, como
telas, caricaturas e charges.
O Problema do Sindicato Único no Brasil (1978),
de Evaristo Moraes Filho (Ed. Alfa-Ômega)
- Outro texto clássico que aborda tema emblemático
de estudos sobre o período republicano: a montagem
do sistema sindical do pós-30 e a questão
do corporativismo. Publicado pela primeira vez em 1952,
o livro, de um dos primeiros professores de direito
do trabalho no Brasil, inaugura uma longa lista de seguidores,
que reúne sociólogos, antropólogos,
cientistas políticos e historiadores, desde então.
A Revolução Brasileira (1966),
de Caio Prado Jr. (Ed. Brasiliense) - Logo após
o movimento militar de 1964, o livro deste prestigioso
historiador desencadeou muitos debates, especialmente
pelas críticas desenvolvidas às interpretações
compartilhadas sobre a formação histórica
brasileira, que, até então, orientavam
particularmente as atividades da esquerda brasileira.
Neste sentido, torna-se um texto-referência, quer
para os trabalhos que se voltaram para a análise
do período do pré 1964, quer para os que
investiram no estudo do regime militar.
Cidadania e Justiça (1979), de Wanderley
Guilherme dos Santos (Ed. Campus) - Um livro que
marcou os debates de fins dos anos 70 e da década
seguinte, incorporando-se definitivamente à bibliografia
de todos os que desejam pesquisas e temas vinculados
à política social e à organização
do trabalho no Brasil. Uma contribuição
decisiva à reflexão sobre os caminhos
e os obstáculos do processo de construção
da cidadania na República.
A Ordem do Progresso (1989), de Marcelo Paiva
Abreu (org.) (Ed. Campus) - Coletânea produzida
por ocasião das comemorações do
centenário da República, reúne
textos que procuram fazer uma análise da economia
brasileira, em perspectiva histórica, cobrindo
o período que vai da proclamação
até o governo Sarney.
História da Vida Privada no Brasil (1998-99),
de Fernando Novais (org.), volumes 3 e 4 (Ed.
Companhia das Letras) - Volumes organizados, respectivamente,
por Nicolau Sevcenko e Lilia M. Schwarcz, trata-se de
obra conjunta, em que vários colaboradores examinam
diferenciados temas, todos confluindo para a questão
das relações entre o público e
o privado no Brasil. Um rico, recente e estimulante
panorama da história sociocultural do período
republicano.
EVALDO CABRAL DE MELLO
Os Sertões , de Euclides da Cunha
(Ed. Francisco Alves) - A importância da obra
cifra-se hoje não na sua inspiração
teórica ou doutrinária, mas no vigor da
narrativa, que sobreviveu bem melhor à prova
do tempo do que a parte ambiciosamente interpretativa
do livro, que já nasceu inatual.
Ordem e Progresso , de Gilberto Freyre
(Ed. Record) - Sob a aparência desorganizada e
boêmia da obra, característica mais presente
nela do que em outros livros do autor e da qual ele
fazia garbo, encontram-se várias idéias
originais sobre a República Velha, a que não
se tem dado a devida atenção. As duas
primeiras páginas do primeiro capítulo
constituem ponto altíssimo da prosa em língua
portuguesa.
Um Estadista da República , de A.A.
de Melo Franco - Trata-se de um livro que, graças
à pesquisa sólida e ao estilo sóbrio,
oferece o que até agora se escreveu de melhor
em matéria de história política
da República Velha.
O Brasil Republicano , de Boris Fausto
(org.) (Ed. Bertrand) - Obra coletiva, tem as virtudes
e os defeitos dos projetos desta natureza no Brasil,
de vez que não é possível preservar
um alto nível de qualidade para todas as contribuições
individuais. O mesmo ocorrera com as séries anteriores
relativas ao Brasil colonial e ao Brasil monárquico.
História da República , de José
Maria Belo - Trata-se de uma síntese da história
política da República Velha que nada tem
de extraordinária, mas que, dada a pobreza da
historiografia sobre o assunto, ainda pode ser lida
com interesse.
De Getúlio a Castelo , de Thomas Skidmore
(Ed. Paz e Terra) -É uma obra de síntese
cuja leitura pode servir de continuação
ao livro de José Maria Belo.
Lanterna na Popa , de Roberto Campos (Topbooks)
- "Lanterna na Popa" é, na realidade,
dois livros em um: uma análise crítica
da política econômica do Brasil desde os
meados do século 20; e as recomendações
pessoais acerca de episódios em que esteve envolvido
o autor e dos homens públicos que conheceu. Do
ponto de vista do leitor, teria sido preferível
que tivessem sido separados.
A Vida do Barão do Rio Branco , de Luiz
Viana Filho (Ed. José Olympio) - É
a obra-prima de um mestre da arte da biografia, que,
como Octavio Tarquínio, tinha o dom narrativo
que no Brasil parece ser monopólio dos biógrafos.
Memórias , de Gilberto Amado -
Qualquer um dos volumes de memórias de Gilberto
Amado pode ser lido com interesse, mas "História
da Minha Infância" e "Minha Formação
no Recife" são especialmente valiosos para
captar o tom da existência provinciana na República
Velha.
Baú de Ossos , de Pedro Nava (Ateliê
Editorial) - O livro é o ponto alto da memorialística
brasileira. O historiador da vida social da República
Velha não o pode dispensar. É uma pena
que os volumes seguintes não tenham a mesma densidade.
Afinal de contas, não se é Proust facilmente.
MANOLO FLORENTINO
Da Monarquia à República - Momentos Decisivos
(1977), de Emília Viotti da Costa (Ed.
Unesp) - Para entender a transição em
seus aspectos mais gerais. Alia uma enorme capacidade
de síntese a grande profundidade tópica.
A Formação das Almas (1990), de
José Murilo de Carvalho (Ed. Companhia
das Letras) - Ensina que a idéia de República
também tem suportes e história.
Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha
(Ed. Francisco Alves) - É obra seminal para a
compreensão de um certo tipo de expressão
cultural bem característico do Brasil.
População e Desenvolvimento Econômico
no Brasil (1981), de Thomas W. Merrick &
Douglas H. Graham (Ed. Jorge Zahar) - Dos poucos
tratados sobre a história da população
brasileira. Fundamental para o entendimento de nosso
evolver demográfico, sobretudo a partir de fins
do século 19.
Preto no Branco - Raça e Nacionalidade no
Pensamento Brasileiro (1976), de Thomas E. Skidmore
(Ed. Paz e Terra) - Queira-se ou não, este livro
ainda é uma incontornável referência
quando o assunto é pensamento racial brasileiro.
Coronelismo, Enxada e Voto (1948), de Victor
Nunes Leal (Ed. Nova Fronteira) - Desvenda os processos
de reprodução do poder local antes da
industrialização acelerada.
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A Invenção do Trabalhismo (1994),
de Angela de Castro Gomes (Ed. Relume-Dumará)
- Para compreender como Getúlio e o trabalhismo
se entranharam tanto e por tanto tempo nos mais recônditos
cantos de nossa consciência; para entender como
se pode ouvir e atender aos reclamos de muitos -para
mantê-los em seu devido lugar.
1964 - A Conquista do Estado, Ação
Política, Poder e Golpe de Classe (1981),
de Rene A. Dreifuss (Ed. Vozes) - Uma radiografia
gramsciana sobre o envolvimento político de parcela
expressiva do empresariado na crise que desembocou no
golpe de 1964.
Os Militares na Política - As Mudanças
de Padrões na Vida Brasileira (1975), de
Alfred Stepan (Ed. Paz e Terra) - Uma boa radiografia
da presença dos militares na vida política
nacional. Uma pesquisa que mereceria sequência.
Processos e Escolhas - Estudos de Sociologia Política
(1998), de Elisa Pereira Reis (Ed. Contracapa)
- Mais um vigoroso exemplo da interdisciplinaridade
nas ciências humanas. Destaca-se sobretudo pela
análise da iníqua desigualdade social,
este traço tão recorrente de nossa história.
RONALDO VAINFAS
Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha
(Ed. Francisco Alves) - Não era historiador,
mas com razão é considerado um dos primeiros
sociólogos brasileiros. Pôs em cena o sertão
nordestino e foi cronista da guerra de Canudos, iluminando
face até hoje encoberta do Brasil.
Coronelismo, Enxada e Voto (1949), de Victor
Nunes Leal (Ed. Nova Fronteira) - Um clássico
sobre as relações entre poder local e
poder central no Brasil. Mostra como o primeiro sempre
foi chave, apesar da centralização política
brasileira vigente desde o Império.
Os Donos do Poder (1959), 2 volumes, de Raymundo
Faoro (Ed. Globo) -A melhor síntese sobre
a história político-institucional brasileira
desde a Colônia até a década de
50. A segunda edição de 1975 avança
e ajuda a compreender a instauração do
regime militar em 1964.
O Colapso do Populismo no Brasil (1967), de Octávio
Ianni (Ed. Civilização Brasileira)
- Livro admirável, entre tantos de Ianni, porque
defende como ninguém a interpretação
do populismo como "pacto" entre a burguesia
e o proletariado. É antivarguista, claro, mas
ilumina uma aliança fundamental para os trabalhadores
brasileiros.
A Revolução de 1930 (1970), de
Boris Fausto (Ed. Companhia das Letras) -Ensaio
clássico sobre o jogo de forças políticas
que levou à ascensão de Getúlio
Vargas, com destaque para a análise da "crise
dos anos 20".
Liberalismo e Sindicato no Brasil (1976), de
Luís Werneck Vianna - (Ed. Paz e Terra) -
Creio ser o melhor estudo sobre a história do
sindicalismo no Brasil, porque combina informação
institucional com reflexão teórica. É
definitiva sua análise sobre a superação
do "liberalismo fordista" pelo corporativismo
getulista, baseado em Gramsci.
O Cativeiro da Terra (1979), de José
de Souza Martins (Ed. Hucitec) - Um livro cirúrgico
sobre as relações de trabalho presentes
no colonato, emblema de como se fez a transição
para o assalariamento rural no Brasil. Teoricamente
denso, é livro que ensina muito sobre a burguesia
não-capitalista do país.
1930 - O Silêncio dos Vencidos (1981),
de Edgard De Decca (Brasiliense) - Um exemplo
da historiografia paulista exageradamente antivarguista.
No entanto, descortinou as alternativas revolucionárias
nos anos 20 e 30 e mostrou como as desastradas atitudes
do Partido Comunista puseram a perder o movimento operário
no Brasil.
Os Bestializados (1987), de José Murilo
de Carvalho (Ed. Companhia das Letras) - Outro clássico
de nossa historiografia, pois mostra como o "povo
brasileiro" era mais esperto do que pensavam os
adversos. Não ligou para a proclamação
da República nem para a política institucional,
percebendo-as como vis, e foi tratar de outras coisas,
resistindo à sua maneira.
A Invenção do Trabalhismo (1988),
de Angela de Castro Gomes (Ed. Relume-Dumará)
- É a grande referência para estudar o
regime instaurado entre 1930 e 37 no Brasil em contraponto
à historiografia paulista, na verdade muito opositora
de Vargas. Ângela leva o trabalhismo a sério
e, sem endossar o "getulismo", consegue explicar
a longevidade do regime no campo do imaginário
político. |