CLIO História - Biblioteca: Guia de Leitura da História do Brasil: Império
         
CLIO História
Prof. Almir Ribeiro
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Guia de Leitura
 
Guia de Leitura
Colônia
Império
República
 

BORIS FAUSTO
A Construção da Ordem e Teatro de Sombras , de José Murilo de Carvalho (Ed. Relume Dumará) - Livro indispensável para o conhecimento do Império brasileiro, concentrando-se, na primeira parte, na formação da elite e, na segunda, na política imperial.
Tempo Saquarema - A Formação do Estado Imperial , de Ilmar Rohloff de Mattos (Ed. Access) - Faz uma dupla com o livro de José Murilo de Carvalho, iluminando as características do conservadorismo e do jogo partidário.
Um Estadista do Império , de Joaquim Nabuco (Ed. Topbooks) - Pela via de uma excelente biografia de seu pai, Nabuco de Araujo, Joaquim Nabuco faz desfilar personagens centrais e analisa problemas da vida política imperial.
Homens Livres na Ordem Escravocrata , de Maria Sylvia de Carvalho Franco (Ed. Unesp) - Monografia clássica, concentrada na região do Vale do Paraíba (SP), explorando temas importantes como a violência no meio rural e as relações de compadrio.
Em Costas Negras , de Manolo Florentino (Ed. Companhia das Letras) - Lança uma nova interpretação da sociedade colonial, enfatizando a acumulação gerada pelo tráfico de escravos, a partir do Rio de Janeiro, e a formação de um poderoso setor social representado pelos traficantes.
Rebelião Escrava no Brasil , de João José Reis (Ed. Companhia das Letras) - Monografia por um especialista na história social dos escravos, versando sobre o levante dos malês, movimento de escravos islâmicos, que ocorreu em Salvador, em 1835.
As Barbas do Imperador , de Lilia Moritz Schwarcz (Ed. Companhia das Letras) - Biografia recente de Pedro 2º, destacando-se pela reconstrução da figura do imperador e da vida sociopolítica da corte.
Da Senzala à Colônia , de Emilia Viotti da Costa (Ed. Unesp) -Um clássico sobre a escravidão nas áreas cafeeiras, abrangendo aspectos econômicos, sociais e ideológicos.
O Norte Agrário e o Império , de Evaldo Cabral de Mello (Ed. Topbooks) - Estudo sobre um tema pouco explorado -o da distribuição de recursos pelo poder central monárquico-, sustentando a tese do favorecimento da corte e das províncias do centro-sul, pelo império.
A Espada de Dâmocles , de Wilma Peres Costa - Estudo versando sobre o Exército, a Guerra do Paraguai e os anos de crise do Império, explorando, entre outros aspectos, as várias vertentes do republicanismo.

EVALDO CABRAL DE MELLO
D. João 6º no Brasil
, de Oliveira Lima (Ed. Topbooks).
O Movimento da Independência , de Oliveira Lima (Ed. Topbooks) - Capistrano reputava o "D. João 6º no Brasil" um livro desorganizado, mas não se pode negar que ele oferece um panorama vigoroso do período juanino, que ainda não foi superado na nossa historiografia. "O Movimento da Independência" lhe é inferior, mas Octavio Tarquínio o considerava a obra mais satisfatória sobre o processo emancipacionista, e pode-se afirmar que continua a sê-lo.
Um Estadista do Império , de Joaquim Nabuco (Ed. Topbooks) - Dispensável reiterar o óbvio, isto é, a importância desta obra para a história do Segundo Reinado.
Sobrados e Mucambos , de Gilberto Freyre (Ed. Record) - É o livro em que melhor se manifestou o ovo de Colombo gilbertiano, vale dizer, a aplicação dos métodos sincrônicos da antropologia cultural, originalmente formulados para a compreensão das sociedades primitivas, a uma sociedade de tipo histórico e, portanto, até então convencionalmente estudada através dos métodos diacrônicos próprios da historiografia.
Do Império à República , de Sérgio Buarque de Holanda (Ed. Bertrand Brasil) - Juntamente com "Um Estadista do Império", a que nada fica a dever, constitui a leitura realmente indispensável para entender o declínio do Segundo Reinado. O fato de ser parte da obra coletiva permitiu ao autor optar por uma análise exclusivamente política, que descreve de dentro o funcionamento das instituições imperiais, em vez de examinar a crise das instituições monárquicas mediante o estudo exógeno do sistema escravocrata ou dos seus valores ideológicos.
História dos Fundadores do Império do Brasil , de Octavio Tarquínio de Souza (Ed. Itatiaia) - A bibliografia recente sobre o processo da Independência e o período regencial é singularmente pobre. As biografias de Octavio Tarquínio ainda oferecem a melhor visão de conjunto, a despeito das limitações do gênero biográfico e das restrições ideológicas decorrentes da interpretação saquarema da história da fundação do Império, de que o autor não se desprendeu. Um dos raros, coisa estranha, historiadores brasileiros a dominar a técnica narrativa.
Os Donos do Poder , de Raymundo Faoro (Ed. Globo) - Sua análise é particularmente feliz no tocante ao período monárquico, razão pela qual não poderia deixar de ser incluído nesta lista, embora a utilização do conceito de estamento patrimonial paire muitas vezes numa região nebulosa.
A Construção da Ordem , de José Murilo de Carvalho (Ed. Relume Dumará) - É uma análise detalhada e profunda da composição dos grupos dirigentes, em particular a magistratura, que criaram o Estado nacional e o consolidaram ao longo do Primeiro Reinado, da Regência e dos primeiros anos do Segundo Reinado.
Bahia, Século 19 , de Katia de Queiroz Mattoso (Ed. Nova Fronteira) - É um estudo modelar de uma sociedade provincial do período monárquico, com base numa exploração hábil e exaustiva das fontes baianas. É de lamentar que o modelo que a obra propõe ainda não tenha sido seguido por outros historiadores especializados em história provincial.
A Abolição do Tráfico de Escravos Brasileiro , de Leslie Bethell (Ed. Expressão e Cultura/Edusp) - É o que há de melhor sobre o processo de tomada de decisões políticas no tempo do Império, inclusive no tocante aos seus condicionamentos internacionais.

MANOLO FLORENTINO
Formação Econômica do Brasil
(1959), de Celso Furtado (Companhia Editora Nacional) - Um de seus grandes méritos é o de haver montado um modelo econômico que qualquer leitor culto pode ver funcionando em todas as conjunturas do mercado internacional. Seco e movido por uma lógica implacável.
Homens de Grossa Aventura - Acumulação e Hierarquia na Praça Mercantil do Rio de Janeiro, 1790-1830 (1998), de João Fragoso (Ed. Civilização Brasileira) - Produto arrojado da recente profissionalização do ofício de historiador. Não faz concessões.
A Construção da Ordem (1980), de José Murilo de Carvalho (Ed. UFRJ/Relume-Dumará) - Identifica os meios pelos quais o Estado imperial herdou e redefiniu a tradição absolutista e patrimonial portuguesa, gerando unidade, centralização e ordem. Exemplo do que a historiografia pode lograr mediante o diálogo interdisciplinar profundo.
Rebelião Escrava no Brasil (1986), de João José Reis (Companhia das Letras) -Notável espelho de quão complexas eram as relações entre os escravos, no cativeiro e em meio às tentativas de superá-lo. Importante resgate da força que o Islã negro teve entre nós.
Formação da Literatura Brasileira (1959), de Antonio Candido (Ed. Itatiaia) - Para contextualizar as escolas literárias e o mundo dos letrados.
A Abolição do Tráfico de Escravos no Brasil (1976), de Leslie Bethell (Ed. Expressão e Cultura/Edusp) - O que torna esse livro imprescindível é o diálogo que ele estabelece entre as fontes britânicas e as brasileiras. Afinal, a escravidão esteve tão arraigada entre nós que somente uma forte determinação exterior poderia dar fim ao tráfico que a alimentava.
Os Donos do Poder (1958), de Raymundo Faoro (Ed. Gobo) - Original aplicação de alguns dos mais importantes conceitos bolados por Max Weber. Parte da política para, no limite, questionar a própria existência de uma "cultura brasileira".
Na Senzala, uma Flor (1999), de Robert W. Slenes (Ed. Nova Fronteira) - Obra de alta carpintaria na qual demografia, antropologia, linguística, iconografia e números delicadamente dão voz aos cativos. De quebra, mostra que a distância entre nós e a África era bem menor do que o Atlântico.
Machado de Assis - A Pirâmide e o Trapézio (1976), de Raymundo Faoro (Ed. Globo) - Destaca-se pela maneira absolutamente refinada com que se utiliza da produção machadiana como fonte histórica. Um espelho primoroso e sutil da Corte imperial, de seus tipos humanos e instituições.
Os Últimos Anos da Escravatura no Brasil (1850-1888) (1978), de Robert Conrad (Ed. Civilização Brasileira) - O melhor painel sobre o abolicionismo e a destruição do escravismo em cada uma das regiões do país. Alia a sistematicidade anglo-saxã a uma extraordinária coleção de fontes.

JOÃO JOSÉ REIS
O Brasil Monárquico
- Tomo 2 da "História Geral da Civilização Brasileira", org. de Sérgio Buarque de Holanda (Difusão Européia do Livro, 1970-1972) - Obra coletiva, permanece o melhor panorama do Brasil monárquico, com capítulos de história política (maior ênfase), econômica, diplomática, militar, religiosa, escravidão, influência britânica, emancipação política e revoltas regionais, entre outros temas. Reflete bem o estado da pesquisa histórica, sobretudo paulista, no início dos anos 70 do Novecentos.
Império - A Corte e a Modernidade Imperial - Vol. 2 da "História da Vida Privada", org. de Luiz Felipe de Alencastro, direção de Fernando A. Novais (Ed. Companhia das Letras) - Obra coletiva, com exemplos de abordagens emergentes. Mas não é só "história nova", e é algo mais que "história da vida privada". O Império visto através do escravo e do senhor, do imigrante e nativo, dos comportamentos e representações diante da vida e da morte, temas amarrados e acrescidos de outros, em penetrante capítulo introdutório.
Um Estadista do Império , de Joaquim Nabuco (Ed. Topbooks) - Fosse apenas uma biografia do pai Nabuco de Araújo, este livro do filho seria suspeito. Tornou-se um clássico indispensável porque é uma história envolvente, testemunho honesto e bem documentado do Império.
Sobrados e Mucambos , de Gilberto Freyre (Ed. Record) - A ordem senhorial urbana, num livro mais bem contextualizado que "Casa-Grande & Senzala". Trata com originalidade e sem cerimônia assuntos que vão dos mais surpreendentes, como estilos de barba e bigode, aos convencionais, como escravidão e miscigenação. Nem tudo faz sentido, mas quase tudo faz pensar.
Tempo Saquarema , de Ilmar Rolf Mattos (Ed. Access) - Vai ao âmago da calmaria do Segundo Reinado. A construção do Estado nacional é a história da afirmação da classe senhorial brasileira, em torno do pacto conservador contra a desordem nas ruas e senzalas.
A Construção da Ordem e Teatro de Sombras , de José Murilo de Carvalho (Ed. Relume-Dumará) - Introduz modo novo de fazer história política. Traça perfil da elite política imperial, suas origens sociais, regionais, ocupacionais. É sobre essa gente em batalhas cruciais, como a abolição e a lei de terras, em relação às quais os senhores rurais, bem representados no poder, nem sempre foram servidos pelo senhor do trono.
As Barbas do Imperador , de Lilia Moritz Schwarcz (Ed. Companhia das Letras) - Abordagem original de Pedro 2º, trata sobretudo da construção da imagem pública do monarca, a partir de vastíssima documentação iconográfica. Se às vezes passa muito rápido sobre tais fontes, deixa sempre pistas inteligentes.
Visões da Liberdade , de Sidney Chalhoub (Ed. Companhia das Letras) - É a corte da perspectiva do escravo. Mostra como ele construiu a derrocada da escravidão no dia-a-dia, avançando suas próprias visões de liberdade, finamente elucidadas pelo historiador. Análise de classe com classe.
Bahia, Século 19 , de Kátia M. de Queirós Mattoso (Ed. Nova Fronteira) - É o Império visto da periferia, nesta radiografia bem documentada da província baiana. Geografia, demografia, economi

a, família, escravidão, riqueza, pobreza, governo, religião -esforço exemplar em direção à inalcançável história totalizante.
Pátria Coroada , de Iara Lis Carvalho Souza (Ed. Unesp).
Da Senzala à Colônia , de Emilia Viotti da Costa (Ed. Unesp) - Escrita há mais de 30 anos, continua a melhor obra de síntese sobre a ascensão e queda da escravidão no império do café.
Obra Completa , de Machado de Assis (Ed. Nova Aguilar) - O mestiço Machado pode ter sido quem mais bem entendeu o branco da corte. Visão penetrante e impiedosa, embora sutil, da classe senhorial e da resistência astuciosa dos subalternos apanhados nas rédeas da dominação paternalista.
Primeiras Trovas Burlescas , de Luiz (Getulino) Gama - Poemas do militante abolicionista negro, de 1904, talvez a primeira expressão literária de orgulho racial afro-brasileiro. É também poesia de crítica divertida e contundente ao racismo em seu tempo.

RONALDO VAINFAS
O Abolicionismo
(1883), de Joaquim Nabuco (Ed. Nova Fronteira) - Livro engajado na causa abolicionista de forma moderada, um clássico do pensamento liberal à moda brasileira. O melhor do livro é o fato de Nabuco ter percebido a especificidade da escravidão brasileira em relação à norte-americana, salientando que, entre nós, ela não correspondia exatamente às hierarquias raciais.
Sobrados e Mucambos (1936), de Gilberto Freyre (Ed. Record) - O segundo grande livro de tantos quanto escreveu Freyre, neste caso desvendando o cotidiano da escravidão no cenário urbano do Rio de Janeiro no século 19. Complementa seu livro maior, "Casa-Grande & Senzala", de 1933.
Formação da Literatura Brasileira (1957), de Antonio Candido (Ed. Itatiaia) - Clássico do maior crítico literário brasileiro e historiador de nossa literatura. Com máxima acuidade e erudição, desvenda a constituição de um sistema literário no Brasil desde 1750 até 1880. Combina análise estética com interpretação histórica, atento à formação da nacionalidade e suas representações.
Da Senzala à Colônia (1966), de Emília Viotti da Costa (Ed. Unesp) - O título não é bom, mas o livro é clássico sobre o complexo jogo de interesses envolvido na abolição do tráfico e da escravidão no Brasil.
Homens Livres na Ordem Escravocrata (1969), de Maria Sylvia de Carvalho Franco (Ed. Unesp) - O primeiro livro que, estudando a sociedade escravista, pôs em cena os brasileiros que não eram senhores nem escravos, utilizando-se pioneiramente de processos-crime como fonte histórica.
Nordeste 1817 (1972), de Carlos Guilherme Mota - Um grande livro sobre o conflito de classes e suas representações na Revolução de 1817, umas das várias insurgências da história pernambucana. Incluo o livro no período imperial porque trata do contexto joanino, pré-emancipatório.
Rebelião Escrava no Brasil (1985), de João José Reis (Ed. Companhia das Letras) - O melhor livro de um dos melhores historiadores brasileiros atuais, na minha opinião o melhor. É livro sobre a Revolta dos Malês, na Bahia, em 1835: uma lição de como estudar o conflito social em conexão com o poder, a cultura e as religiosidades, além de ligar a história brasileira à africana.
Tempo Saquarema (1986), de Ilmar Mattos (Ed. Access) - A melhor interpretação sobre a formação do Estado imperial numa perspectiva de luta de classes, explicando a hegemonia alcançada pelo Rio de Janeiro escravocrata no século 19.
Bahia, Século 19 - Uma Província no Império (1992), de Kátia Mattoso (Ed. Nova Fronteira) - Reúne resultados de pesquisas realizadas desde os anos 60. Historiadora "greco-baiana" de forte formação braudeliana, foi uma das primeiras a valorizar as relações entre geografia e história, as fontes seriais e a demografia histórica. Utilizou números sem prejuízo da narrativa e a favor de uma história social global.
Na Senzala, uma Flor (1999), de Robert Slenes (Ed. Nova Fronteira) - Apesar de publicado somente em 1999, reúne pesquisas e textos que o autor realiza há décadas. É o principal historiador da cultura banto na diáspora da escravidão brasileira. Explica a recriação de identidades culturais africanas, apesar e através da escravidão.

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