| BORIS
FAUSTO
Raízes do Brasil , de Sérgio
Buarque de Holanda (Ed. Brasiliense) - Livro que
não se refere apenas à Colônia,
mas nela localiza o essencial das "raízes
do Brasil". A distinção entre colonização
espanhola e portuguesa fez escola.
Visão do Paraíso , de Sérgio
Buarque de Holanda (Ed. Brasiliense) - Ensaio sobre
o imaginário do colonizador, como indica seu
subtítulo: os motivos edênicos no descobrimento
e na colonização do Brasil.
Formação do Brasil Contemporâneo
(Colônia) , de Caio Prado Jr. (Ed.
Brasiliense) - Um clássico sobre as linhas gerais
da implantação da Colônia, de inspiração
marxista, sendo referência importante para estudos
posteriores.
O Diabo e a Terra de Santa Cruz , de Laura
de Mello e Souza (Ed. Cia das Letras) - Aproxima-se
e ao mesmo distancia-se do livro de Sérgio Buarque
de Holanda, "Visão do Paraíso".
Fundamental para o conhecimento da religiosidade popular
e das chamadas práticas de feitiçaria
no Brasil colonial.
Olinda Restaurada , de Evaldo Cabral de Mello
(Ed. Topbooks) - Trata-se de um estudo sobre o período
holandês no Brasil. Focaliza os anos 1630-1654,
ampliando a compreensão dos interesses envolvidos,
ligados ao açúcar, e a natureza da guerra
de expulsão.
Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial
(1777-1808), de Fernando A. Novais (Ed. Hucitec)
- Monografia clássica, de inspiração
marxista, versando sobre relações entre
a colônia e a metrópole, em uma conjuntura
decisiva para os rumos da Independência brasileira.
Segredos Internos , de Stuart B. Schwartz
(Ed. Companhia das Letras) - Monografia que reconstitui
a economia e a sociedade açucareira da Bahia,
a partir de fontes primárias. Critica concepções
tradicionais sobre a continuidade no tempo e a riqueza
dos senhores de engenho.
A Devassa da Devassa , de Kenneth Maxwell
(Ed. Paz e Terra) - Estudo das relações
entre Brasil e Portugal, nos anos 1750-1808, tendo como
foco a análise da Inconfidência mineira.
A Nação Mercantilista , de Jorge
Caldeira (Ed. 34) - Recentemente publicado, o livro
é um ensaio sobre o Brasil colonial e do século
19, tratando de relativizar os elementos estruturais
e enfatizar uma deliberada opção dos agentes
internos, na explicação do "atraso
brasileiro".
D. João 6º no Brasil , de Oliveira
Lima (Ed. Topbooks) - Um clássico sobre o
período joanino, publicado pela primeira vez
em 1908. Reavalia o papel do rei português e reconstitui
a vida na corte, com uma qualidade que prenuncia a obra
de Gilberto Freyre.
EVALDO CABRAL DE MELLO
História do Brasil , de Robert Southey
- O profundo conhecimento da história de uma
distante colônia portuguesa por parte deste "poeta
laureado" da Grã-Bretanha foi motivo de
mofa para seus contemporâneos ingleses; mas se
ainda hoje ele é lido não o deve a sua
poesia.
História do Brasil , de H. Handelmann
- Publicada dez anos decorridos da primeira edição
da "História do Brasil", de Varnhagen
(1854), a obra do historiador alemão só
em 1931 mereceu tradução brasileira, tratando-se
ainda hoje de livro escassamente lido, embora possa
ser considerado o iniciador do estudo da história
brasileira sob critério regional.
Capítulos de História Colonial ,
de J. Capistrano de Abreu (Ed. Itatiaia/ Edusp)
- A despeito de redigido há quase um século,
permanece obra indispensável, devido à
garra sintetizadora do autor. Não é o
produto de intuições deixadas no ar, mas
elaboradas ao longo de muitos anos de convívio
diário com as fontes da história colonial.
Casa-Grande & Senzala , de Gilberto Freyre
(Ed. Record) - Obra de intuições certeiras
e de outras não tão certeiras assim, proporciona
uma visão poderosa do nosso passado colonial.
Submetido a análises pontuais, mostra deficiências
compreensíveis num livro escrito nos anos 30
do século 20, quando o autor não dispunha
de uma infra-estrutura monográfica capaz de embasar
estudo de escopo tão ambicioso.
Caminhos e Fronteiras , de Sérgio Buarque
de Holanda (Ed. Companhia das Letras).
Visão do Paraíso , de Sérgio
Buarque de Holanda (Ed. Brasiliense) - "Caminhos
e Fronteiras" e "Visão do Paraíso"
constituem duas obras-primas da nossa historiografia
colonial e, como tal, insuperadas por nenhum outro livro
dedicado ao período. Honram a historiografia
de qualquer país. Literariamente, também
têm lugar aparte graças ao estilo espaçoso
do autor.
Tempo de Flamengos , de J. A. Gonsalves de
Mello - Na trilha de Gilberto Freyre, que o estimulou
aos estudos de história social, o autor oferece
um quadro abrangente da presença holandesa no
cotidiano urbano e rural do Nordeste e das relações
do invasor com luso-brasileiros, judeus, índios
e negros.
Formação do Brasil Contemporâneo
, de Caio Prado Júnior (Ed. Brasiliense)
- Sessenta anos decorridos da sua redação,
continua a ser uma síntese magistral da existência
material da Colônia. Quem o consulta, constata
invariavelmente a precisão e a seriedade com
que seu autor se desincumbiu da tarefa, inclusive da
cozinha do ofício. Obra escrita por um marxista,
ela poderia ser perfeitamente assinada por um historiador
que o não fosse.
Salvador Correia de Sá e a Luta pelo Brasil
e Angola , de Charles R. Boxer - Trata-se
da mais importante das obras dedicadas ao Brasil por
este eminente historiador do mundo luso-brasileiro em
língua inglesa. Seu conhecimento das fontes do
século 17 é algo de notável, servindo
para demonstrar que a erudição ainda é
o melhor antídoto contra o envelhecimento dos
livros de história.
Segredos Internos , de Stuart B. Schwarz
(Ed. Companhia das Letras) -Verdadeiramente insubstituível
para o estudo da mais antiga das nossas sociedades coloniais,
a canavieira do Nordeste.
LAURA DE MELLO E SOUZA
Histoire d'un Voyage Fait en la Terre du Brésil
(História de uma Viagem Feita à Terra
do Brasil, 1578), de Jean de Léry
- Com o extraordinário livro de Léry -que
Lévi-Strauss chamou de "breviário
do etnólogo"-, o Brasil e os tupinambá
entram na Europa e lançam-se as bases do relativismo
cultural. A grande edição é a de
Frank Lestringant (1994, para "Livres de Poche"),
que tomou por base a edição de 1580. A
tradução brasileira, de Sérgio
Milliet, parece-me basear-se na de 1578 e é bastante
incompleta, deixando de fora passagens fundamentais.
História do Brasil (1627), de Frei
Vicente do Salvador (Ed. Itatiaia) - Frei Vicente
escreveu a primeira história do Brasil, antes
mesmo de existir um Brasil. De certa forma, ele nos
"inventou". É importantíssimo
para os fatos ocorridos nos primeiros tempos da colonização
e arguto ao perceber as contradições entre
o lá (Portugal) e o cá (o Brasil).
Capítulos de História Colonial
(1907), de J. Capistrano de Abreu (Ed. Itatiaia/Edusp)
- Capistrano é o antepassado direto das interpretações
do Brasil que voltam ao período colonial para
entender o processo formativo do país. A melhor
coisa do livro é a ênfase na interiorização
do processo colonizador.
Vida e Morte do Bandeirante (1929), de José
Alcântara Machado (Ed. Itatiaia) - É,
a meu ver, a primeira monografia da moderna historiografia
brasileira. Recorta um objeto -São Paulo nos
séculos 16 e 17-, destaca um problema -a pobreza
econômica- e "inventa" uma fonte documental:
os inventários e testamentos, só muito
depois utilizados pela historiografia do hemisfério
Norte.
Casa-Grande & Senzala (1933), de Gilberto
Freyre - É um dos mais importantes trabalhos
das ciências sociais neste século. Polêmico
e discutível, tem aspectos geniais. Influenciou
a historiografia norte-americana sobre escravidão
e inaugurou temas só tratados pela escola dos
Annales décadas depois. No que diz respeito à
colônia, traz para a sua análise uma renovação
de enfoque e temas sem precedentes.
Formação do Brasil Contemporâneo
(1942), de Caio Prado Jr. (Ed. Brasiliense) -
Este livro deu, como logo no início nos alerta
o autor, sentido à colonização
brasileira e forneceu instrumentos para importantes
análises estruturais subsequentes. Envelhecido
e discutível nas partes sobre sociedade e administração,
é argutíssimo ao apontar os canais para
a dinamização interna da economia -os
circuitos de muares, a pecuária, a economia de
subsistência.
Caminhos e Fronteiras (1956), de Sérgio
Buarque de Holanda (Ed. Companhia das Letras) -
Compreende uma série de exercícios de
história cultural que, apesar de breves, têm
um fôlego surpreendente. Abre perspectivas de
análise ainda irrealizadas, e é intrigante
que seja um livro tão pouco lido e citado.
Visão do Paraíso (1959), de Sérgio
Buarque de Holanda (Ed. Brasiliense) -É a
obra mais notável de toda a historiografia brasileira.
Tem erudição, reflexão e originalidade
ímpares. Por ser tão superlativa, talvez
iniba um pouco o leitor. É mais uma obra-prima
de Sérgio que não conheceu a repercussão
merecida e só começou a ter impacto na
historiografia brasileira por volta do meado dos anos
80.
Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial
(1979), de Fernando A . Novais (Ed. Hucitec)
- Esta obra retoma a idéia do sentido da colonização
de Caio Prado e analisa de forma notável o "sistema
colonial", mostrando suas contradições
e a necessidade de se entender metrópole e colônia,
Europa e Brasil em suas relações dinâmicas.
Salvador Correia de Sá e a Luta pelo Brasil
e Angola (1952), de Charles R. Boxer - Este
é, até hoje, o único estudo de
fôlego sobre a formação do complexo
sul-atlântico do império português,
destrinchando a constituição e consolidação
dos nexos estabelecidos entre a América portuguesa,
a África e a Europa no século 17. Por
fim, realiza ao mesmo tempo a biografia da sua personagem,
Salvador Correia, e a história do Atlântico
Sul, mostrando como, às vezes, certos agentes
históricos encarnam a História.
A Fronda dos Mazombos (1995), de Evaldo Cabral
de Mello (Ed. Topbooks) - É um marco na historiografia
social do Brasil. Sendo uma narrativa assentada na minúcia
e na atenção à especificidade -Pernambuco
entre 1660 e 1715-, cria, contudo, o melhor "modelo"
de análise das sublevações coloniais.
MANOLO FLORENTINO
O Império Marítimo Português
- 1415-1825 , de Charles R. Boxer (Edições
70, Lisboa) - Imprescindível demonstração
da natureza arcaica e parasitária do Antigo Regime
lusitano e do lugar da Colônia brasileira nos
quadros do império português.
Transformation in Slavery - A History of Slavery
in Africa , de Paul E. London Lovejoy (Cambridge
University Press) - Explica a inserção
estrutural da África no sistema Atlântico
(via tráfico negreiro) a partir de motivações
intrínsecas à própria história
africana. Fundamental para pôr fim ao mito do
"bom selvagem".
A Sociedade contra o Estado, de Pierre Clastres
(Ed. Francisco Alves) - Para entender politicamente
as sociedades pré-cabralinas. Originalíssima
contribuição etno-histórica deste
anarquista, discípulo de Lizot, precocemente
desaparecido.
Visão do Paraíso , de Sérgio
Buarque de Holanda (Ed. Brasiliense) -Para além
da riqueza e do poder, conquista e colonização
do Brasil obedeceram a profundas motivações
edênicas. Um verdadeiro show de elegância
e erudição.
Casa-Grande & Senzala (Formação
da Família Brasileira sob o Regime de Economia
Patriarcal) , de Gilberto Freyre (Record)
- Genial. Antecipou algumas das mais importantes conquistas
metodológicas da historiografia ocidental. É
difícil encontrar hoje em dia quem escreva com
tanta coragem.
Segredos Internos , de Stuart B. Schwartz
(Ed. Companhia das Letras) - A mais qualificada síntese
moderna da história baiana. Incorpora o que há
de melhor entre as pesquisas sobre a região,
esmerando-se no trânsito entre diversos tipos
de fontes.
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A Escravidão Africana no Brasil (Das Origens
à Extinção do Tráfico)
, de Maurício Goulart (Ed. AlfaÔmega)
- Até o momento, a mais sólida estimativa
das importações brasileiras de escravos
africanos. Uma verdadeira aula sobre como abordar consistentemente
grandes questões a partir de poucos dados.
História Geral do Brasil , de Francisco
Adolpho de Varnhagen (Ed. Melhoramentos) - O grande
tratado onomástico da história brasileira,
como recentemente definiu-o um arguto crítico.
Devem ser consultadas as anotações de
Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia.
A Devassa da Devassa (A Inconfidência Mineira:
Brasil-Portugal, 1750-1808) , de Kenneth Maxwell
(Ed. Paz e Terra) - Para entender a Inconfidência
Mineira a partir de uma perspectiva verdadeiramente
atlântica.
O Espelho de Próspero (Cultura e Idéias
nas Américas) , de Richard M. Morse
(Ed. Companhia das Letras) - Se nada nos une, o que
de fato nos separa? Explica, dentre outros tópicos,
as marcantes diferenças culturais entre a colonização
ibérica e a anglo-saxã, partindo da própria
Idade Média européia. Erudição
borgiana.
RONALDO VAINFAS
História do Brasil (1627), de Frei Vicente
do Salvador (Ed. Itatiaia) - O primeiro que escreveu
um livro com este título. Rigoroso nos fatos
e muito crítico. Franciscano, foi nosso primeiro
historiador.
Capítulos de História Colonial
(1907), de Capistrano de Abreu (Ed. Itatiaia/Edusp)
- Deu uma guinada na historiografia brasileira, pois
questionou a "História Geral" de Varnhagen,
bem documentada, mas história "oficial".
Deslocou o foco da colonização portuguesa
para a Colônia na sua diversidade.
Casa-Grande & Senzala (1933), de Gilberto
Freyre (Ed. Record) - Livro genial, apesar de inúmeras
críticas que com razão lhe moveram. Concebeu
como ninguém a mestiçagem cultural inerente
à nossa história e introduziu a antropologia
na historiografia brasileira.
Formação do Brasil Contemporâneo
(1942), de Caio Prado Jr. (Ed. Brasiliense) -
Foi o primeiro a conceber a colonização
como sistema e como estrutura, apesar dos vários
deslizes na avaliação da questão
racial. Ao contrário do que muitos dizem, percebeu
muito bem as articulações econômicas
no interior da Colônia.
A Organização Social dos Tupinambás
(1946), de Florestan Fernandes - O melhor livro
de Florestan, que fez história sem ser historiador.
Acho que os antropólogos não gostam, mas
o livro dá lição de como explorar
etnograficamente as fontes européias para desvendar
a cultura tupinambá.
Visão do Paraíso (1959), de Sérgio
Buarque de Holanda (Ed. Brasiliense) - É
o melhor livro do maior historiador brasileiro, pois
inaugura o estudo do imaginário do Descobrimento
e avança na comparação entre a
colonização portuguesa e a espanhola da
América, por ele mesmo esboçada em "Raízes
do Brasil" (1936).
Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial
(1979), de Fernando Novais (Ed. Hucitec) - Avançou
na tese da colonização moderna como sistema,
o que causou muita polêmica. Mas o melhor do livro
é a maneira de articular as transformações
econômicas européias e a política
portuguesa no fim do século 18.
Relações Raciais no Império
Colonial Português (1967), de Charles Boxer
(Ed. Afrontamento, Lisboa) - Nosso maior brasilianista,
autor de copiosa obra. Escolhi esse livro de Boxer como
emblema de suas teses. Pela inserção do
Brasil nos quadros do império português
e pela crítica ao mito da "democracia racial".
Rubro Veio (1985), de Evaldo Cabral de Mello
(Ed. Companhia das Letras) - Diplomata, é um
dos nossos melhores historiadores, autor de vasta obra
sobre Pernambuco colonial. Neste livro, Evaldo põe
abaixo mitos importantes da guerra contra os holandeses
como patamar da brasilidade.
O Diabo e a Terra de Santa Cruz (1986), de Laura
de Mello e Souza (Ed. Companhia das Letras) - O
melhor livro de Laura, embora muitos prefiram "Desclassificados
do Ouro". Mas é que o Diabo inaugurou a
moderna história das mentalidades no Brasil,
mostrou as potencialidades das fontes inquisitoriais
para a história cultural e entrou fundo no problema
da religiosidade, traço essencial da história
e da vida no Brasil. |