P·A·R·I·S
· E·M · 1·7·8·9
Joseph-Ignace
Guillotin era um deputado condenado ao anonimato
durante a Revolução Francesa. Sua
ausência invariavelmente preenchia uma lacuna.
Pouco se sabia sobre seu passado de jesuíta
e médico. Mas em dezembro de 1789 - seis
meses depois da queda da Bastilha - ele finalmente
teve uma idéia. Ao longo de acalorados
debates sobre a pena de morte, propôs o
fim da decapitação. Afinal, não
ficava bem cortar a cabeça dos inimigos
com lâminas manuais - prática, de
resto, herdada do Antigo Regime.
O
deputado sugeriu outro instrumento, mais rápido
e eficiente, para diminuir o sofrimento dos réus.
Era uma afiadíssima máquina em uso
na Itália. Se ela servia para cortar resmas
de papel e aparar livros, também poderia
fazer rolar muitas cabeças. Foi corte e
queda. Chamada inicialmente de Louison, a engenhoca
logo depois seria conhecida por guilhotina - uma
homenagem ao seu obscuro padrinho.
Tantas fez a guilhotina que
até o próprio Joseph-Ignace esteve
perto de visitá-la. Livrou-se das acusações
de adversário do governo e saiu da prisão
um pouco antes. Na Paris de 1789, no entanto,
a enorme lâmina era a cara da morte - e
estava viva - em cada canto de praça. Houve
centenas de execuções. Um dos locais
prediletos dos revolucionários era a Praça
Luís XV (número 1 no mapa)
- rebatizada como Praça da Revolução
a partir de 1793. Ali, a rainha Maria
Antonieta, a Austríaca, subiu
ao cadafalso dias depois de Luís
XVI, seu marido. Os ruídos
de carretas de prisioneiros pela rua Saint-Honoré,
com destino à praça, faziam parte
da vida cotidiana da cidade. Hoje, o lugar é
chamado de Praça da Concórdia -
uma agitada e trepidante área do centro
da capital francesa, com trânsito pesado,
luzes de néon e um gigantesco obelisco
de 3.300 anos.
Não muito distante dali
ficava o intrigante Palácio das Tuileries
(número 2 no mapa),
incendiado pela Comuna em 1871. Foi construído
pela rainha Catarina de Médicis. Um bruxa
da corte, porém, desaconselhou sua ocupação
pela realeza. Viu urucubaca (em francês)
ao consultar sua bola de cristal. E estava certo.
A primeira vez que o palácio abriu suas
portas foi para receber Luís XVI e sua
família - presos pela Revolução.
Em 1792, o rei empreendeu uma fuga por seus jardins,
mas acabou recapturado. O amaldiçoado lugar
serviu ainda de palco para batalhas sangrentas
e a execução de toda uma guarda
real. E, por fim, foi consumido pelas chamas da
Comuna. Restaram apenas os jardins. Na verdade,
um grande parque com longas e retas avenidas,
projetado por Le Nôtre, o célebre
jardineiro de Luís XIV. Ainda hoje situa-se
num ponto privilegiado, ao lado do rio Sena, Museu
do Louvre e Praça da Concórdia.
Mais acima, do outro lado da
rua Saint-Honoré, está o Palácio
Real (número 3 no mapa).
Apesar do nome, os reis não viviam lá.
O reduto da monarquia era o Palácio
de Versailles, 24 km a sudoeste de
Paris. O Palácio Real, a rigor, desempenhou
inúmeros papéis desde que foi erguido
no século 17 para servir de residência
particular ao cardeal Richelieu. Atualmente, no
entanto, nada ali faz lembrar seu inquieto passado.
Abriga vários departamentos da administração
municipal e sua praça atrai aposentados
em busca de sol, mães, crianças
e carrinhos de bebê. Um contingente - justiça
seja feita - muito mais pacífico do que
os inflamados grupos do tempo da Revolução.
Naquela época, centenas de pessoas vinham
de toda parte. Alguns cruzavam o Sena pela Pont-Neuf
(número 4 no mapa)
- ponte construída em 1607 e um dos símbolos
de Paris - para participar das concentrações
populares. Em volta do palácio havia também
cafés, casas de jogos e prostituição.
Ali, a opinião pública se manifestava
com toda sua veemência. "Foi o centro
da revolta", resumiu Marat. Verdade - os
encontros, as reuniões, os discursos dos
revolucionários aconteciam nesse palácio,
levantado em forma de anfiteatro. "Muitos
historiadores do período o descrevem como
um circo", conta o professor de Filosofia
Política da USP Milton Meira do Nascimento,
autor de Opinião Pública e Revolução.
"Era um lugar no qual a plebe promovia suas
grandes concentrações."
Adiante da Pont-Neuf, na direção
leste da cidade, aparece o Palácio da Justiça
(número 5 no mapa).
Ele integra, na verdade, um conjunto de prédios
(os outros são a Saint Chapelle e a Concièrgerie),
agrupados em torno de um pátio central.
A partir de 1789, o local passou a funcionar como
Tribunal Revolucionário. O edifício
da Concièrgerie guarda uma longa história
de sangue, tortura e morte. Ali foi executado
Ravaillac (assassino de Henrique IV) e Damiens
(o homem que tentou matar Luís XV). A própria
Maria Antonieta permaneceu encarcerada numa de
suas celas. Entre 1793 e 1794, a guilhotina caiu
sobre o pescoço de 2.600 prisioneiros da
Concièrgerie.
MULTIDÃO EM FÚRIA
Um rastro de sangue se espalhava
por toda Paris de 1789. À frente do Hôtel
de Ville (número 6 no mapa)
- sede da Prefeitura desde 1357 e ainda agora
utilizado para o mesmo fim - havia uma praia.
Era o ponto de encontro de desempregados, grevistas
e rebeldes. Daí seu nome - Praia da Greve.
Mas suas areias também foram cenário
de execuções revolucionárias.
Certo é que ninguém
mais conteve o povo depois de 14
de julho de 1789. Naquele dia, sob céu
encoberto, uma multidão em fúria
marchou contra a antiga fortaleza da Bastilha
(número 7 no mapa),
uma obra do século 14. Ela simbolizava,
para os franceses em geral e os parisienses em
particular, uma prisão que misturava ladrões
com aristocratas, como a Marquesa de Brinvilliers,
e filósofos, como Voltaire. Mas, sobretudo,
encerrava por trás de suas grades centenas
de anônimas vítimas das arbitrariedades
do Antigo Regime.
Era
preciso destruí-la. Sim, não seria
um ataque muito fácil. A fortaleza de oito
torres redondas era protegida por muralhas e rodeada
de perigosas fossas. O comandante da cidadela,
De Launay, havia providenciado reforço.
Além de convocar seus 82 soldados, pediu
socorro a um destacamento suíço
de 32 homens. Na noite de 12 para 13 de julho
descarregou 250 barris de pólvora no pátio
da prisão. A ordem era resistir.
Canhões
apontavam para fora da Bastilha. Mas o que tinham
a perder milhares de homens massacrados pela escalada
da miséria, uma profunda desorganização
e uma insustentável crise econômica?
Alguns deles se lançam para as muralhas
aos gritos de "queremos a Bastilha".
Atrás, uma multidão repete o brado
em coro. O artesão Louís Tournay
sobe ao telhado da casa do corpo de guarda e salta
para o pátio, armado com um machado. De
Launay prefere morrer a se entregar. Corre para
atear fogo na reserva de pólvora, mas é
impedido por um de seus soldados. A guarnição
não deseja esse fim. Em seguida, os soldados
aparecem com lenços brancos agitados -
a Bastilha se rende. Às cinco da tarde,
eles abrem os portões para o povo. Houve
quase seis horas de combate. As partes começam
a contar seus heróis - de um lado, 98 populares
mortos, sessenta feridos e treze mutilados; de
outro, um soldado morto e três feridos.
E a França nunca mais seria como antes.
Não fica pedra sobre
pedra. A Bastilha é totalmente destruída.
Outros locais, emblemas do Absolutismo, também
são atacados. Uns terminam destruídos,
outros são descaracterizados. A igreja
de Notre-Dame (número 8 no mapa),
por exemplo, tem a maioria de suas estátuas
e pórticos derrubados. Alguns tesouros
são saqueados. E se transforma no Templo
da Razão - um culto que rompe radicalmente
com o cristianismo, sob a inspiração
de Robespierre, e instala uma espécie de
religião difusa voltada para um novo e
indefinido ser supremo. As 48 igrejas e os 141
conventos da Paris de 1789 ganham outra finalidade
- centros de reuniões políticas.
O Archevêché (arcebispado, número
9 no mapa)
é utilizado como sede da Assembléia
Constituinte imediatamente após a queda
da Bastilha. Nem mesmo a igreja de Santa Genoveva,
o chamado Panteão (número 10 no
mapa),
escapou. Virou um mausoléu para figuras
ilustres. Ali, os vitoriosos reverenciavam as
cinzas dos filósofos Voltaire e Rousseau,
patronos da Revolução, e também
expurgavam inimigos, como Marat, cujos restos
acabaram levados para lugar incerto.
Foi
numa Paris assim que desabou uma Revolução
capaz de mudar a face do mundo. Uma cidade, enfim,
que à época tinha dezesseis bairros,
29 hospitais, 22 mercados, dezesseis escolas,
oito praças e 600.000 habitantes.
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