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H·O·R·R·O·R
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T·E·M ·
E·X·P·L·I·C·A·Ç·Ã·O
Quando se fala da 2ª Guerra Mundial, no
cinema, na TV, nos jornais e nas revistas em quadrinhos,
vem a tona o clássico museu de horrores.
A escola não tem como escapar e, levada
pela onda, veicula também frente a atônitos
jovens a visão Boris Karloff da História.
Eis como ela se resume: 1 350 000 toneladas de
bombas despejadas, a maior parte sobre populações
civis; 55 milhões de mortos; dezenas de
cidades históricas reduzidas a pó
com seus tesouros milenares; campos de extermínio
e tortura; experiências científicas
sádicas com porquinhos-da-índia
humanos. Por toda parte fome e devastação,
hordas de refugiados trêmulos, feridos e
aleijados arrastando-se como espectros em busca
de um inexistente abrigo.
A exibição desse painel, nas décadas
de 50 e 60, incendiou e feriu a imaginação
dos atuais quarentões. E, quando pedíamos
uma explicação, a que nos davam
era ainda mais absurda e sinistra: tudo isso fora
por nada, só porque um pintor fracassado,
com a cuca cheia de cerveja e frases de Nietzsche
resolvera dominar o mundo. Graças a Deus,
fora detido em tempo pela cruzada mundial das
democracias (em cujas fileiras se incluíam
Stalin e o nosso fascismo doméstico!).
E o Bem, encarnado na forma de duas bombas atômicas,
conseguira finalmente vencer o Mal.
Mas o professor secundário, que afinal
é um educador e não um encenador
de história de Drácula, bem pode
deixar para a TV e os filmes essa versão:
inspirada em louváveis propósitos
de propaganda antinazista, ela tem efeitos letais
sobre a inteligência juvenil, que, ao ver
fatos grandiosos e horrendos boiando no vácuo
da mais inexplicável gratuidade, não
pode deixar de concluir que o mundo dos adultos
é, em si mesmo, tão doido quanto
o sonho nazista de dominá-lo. Qualquer
primeiranista de Psicologia conhece o efeito hipnótico
e fascinante do horror exibido sem explicação.
E qualquer educador que tenha dois grãos
de sensatez poderá, numa aula sobre 2ª
Guerra Mundial, obter um resultado melhor do que
levar involuntariamente os alunos à convicção
de que Hitler, afinal, como o próprio Drácula,
talvez tivesse lá seus encantos. Aliás,
ele não bebia nem fumava e era vegetariano,
o que o torna ainda mais simpático a certas
mentalidades.
Mas como fazer? Como encontrar, sob o aranhol
de maldades e loucuras, o fio sutilíssimo
de alguma razão de ser, que, sem desculpar
o crime moral, atenue ao menos a impressão
de absurdidade lógica do que fizeram os
alemães? Quem nos dá a pista
é um outro alemão, o historiador
e economista Max Weber (um dos mentores da República
liberal de Weimar, destruída pelo nazistas).
Diante da confusão dos fatos históricos,
dizia Weber, é preciso buscar a intenção
que os homens tinham e o significado que, certo
ou errado, atribuíam ao que faziam. Aí
até um Hitler pode aparecer reduzido a
proporções humanas e compreensíveis
(loco si, pero no tonto, como diria Cervantes)
e despido da aura satânica que, numa época
de rebelião generalizada contra a divindade,
só faz dignificá-lo.
Que é que Hitler queria? Após cinco
décadas de pesquisas, seus planos são
hoje bem conhecidos. Hitler havia estudado História
- o bastante para conhecer as advertências
que, desde o século passado, anunciavam
o fim próximo do domínio europeu
e a emergência de novos poderes. "Durante
os anos intermediários do século
19", afirma o historiador britânico
Geoffrey Barraclough, "escritor após
escritor predissera a decadência da Europa
e a ascensão da Rússia e dos Estados
Unidos como as duas grandes potências mundiais."
A expansão industrial desses dois países,
de 1890 a 1914, ultrapassou a de seus rivais europeus,
parecendo confirmar a previsão, a qual,
em 1918, com o sucesso do livro de Oswald Spengler,
A Decadência do Ocidente (que teve
entre seus assustadíssimos leitores o jovem
Adolf Hitler), saiu do círculo dos estudiosos
para tornar-se lugar-comum e alimentar o debate
político. |