|
|
Bibliografia
::: Ver também citações ao
final de cada documento. |
|
| |
Clique nas imagens para ampliar.
Pode haver alguma demora na abertura devido ao
tamanho das imagens. |
|
| |
|
|
|
“Quando
um escravo comete um crime, as autoridades
se encarregam de puni-lo (...) ; mas quando
ele se limita a descontentar o senhor
pela sua embriaguez, preguiça,
imprudência ou pequeninos roubos
este o pode punir como bem entende. Em
verdade, existem leis que impõem
certos limites ao arbítrio e à
cólera dos senhores, como por exemplo
a que fixa o número de chicotadas
que é permitido infringir de uma
só vez, ao escravo, sem a intervenção
da autoridade; entretanto (...) essas
leis não têm força
e talvez mesmo sejam desconhecidas da
maioria dos escravos e senhores; por outro
lado, as autoridades se encontram tão
afastadas que, na realidade, o castigo
do escravo por uma falta verdadeira ou
imaginária, ou os maus tratos resultantes
do capricho e da crueldade do senhor só
encontram limites no medo de perder o
escravo, pela morte ou pela fuga ou no
respeito à opinião pública.
Mas essas considerações
nem sempre são suficientes para
impedir o mal e é inegável
que não faltem exemplos de crueldades
impunes, que provocam a mutilação
ou a morte de escravos ...
(...)
os delitos graves são punidos com
o chicote; para as faltas menores usa-se
a palmatória. Essas correções
são quase sempre administradas
em presença de todos os escravos.
É de desejar-se, sem dúvida,
que o uso do chicote se pouco a pouco
completamente abolido, o que se pode esperar
para breve, pois o interesse dos colonos
se concilia perfeitamente com essa abolição.
A experiência provou, com efeito,
que nada estraga mais um escravo e lhe
diminui o valor do que o uso freqüente
do chicote, que destrói nele o
sentimento de honra. E se, é verdade
que os maus escravos são os mais
corrigidos, também é verdade
que há nisso uma contínua
e infeliz reciprocidade de causa e efeito.
De resto, os escravos se habituam tão
rapidamente a esse gênero de dor,
que muitas vezes lhes acontece suplicarem
a seus senhores fazê-los chicotear,
de preferência a encarcerá-los,
mesmo durante pouco tempo. O melhor meio
de manter os escravos no dever, com a
severidade necessária e sem crueldade,
é encarcerá-los durante
certo tempo, principalmente nos dias que
lhes são reservados, e sem outras
privações que a da luz.
Passar um só dia na obscuridade,
sem alimentos, é uma coisa que
o negro teme muito mais que as chicotadas.”
(Johann-Moritz Rugendas.
Viagens pitoresca através do Brasil.
São Paulo, Martins-EDUSP, 1972.
p. 158.)
|
|
“O rancho era espaçoso
e lúgubre, como um estábulo,
sendo mantido por uma mulher, que morava ali
com cinco ou seis negros. Era jovem e bastante
bonita, mas naquele momento achava-se evidentemente
embriagada. Fiquei sabendo que ela tinha sido
uma mulher de costumes livres quando morava
no Rio e que tinha dois filhos ilegítimos.
Havia alugado aquele rancho e fizera de um
dos negros seu sócio e amante. De todas
as mulheres que já constituíram
uma vergonha para o seu sexo, aquela ali –
creio eu – era uma das piores. Depois de ter
esvaziado uma garrafa de cachaça, a
qual, como pude ver quando passei pela venda,
ela levava constantemente à boca, a
mulher veio para fora, com as faces afogueadas
e um chicote na mão – a própria
personificação de Tisífone.
Um dos seus escravos era um pobre menino de
doze anos sobre o qual ela descarregava todos
os seus impulsos malignos. Toda vez que o
encontrava, ela o atacava a chicotadas, no
rosto, no corpo, deixando-o depois gemendo
e sangrando, e isso sem nenhuma razão
a não ser por simples e cruel capricho.
(...)
Para conter a violência dos amos, estes
estão sujeitos a uma multa se maltratarem
um seu escravo, mas nem uma parcela dessa
multa vai para a infortunada vítima.
Uma pessoa poderá ser obrigada a passar
o seu escravo para outra, se ficar provado
que o maltrata, mas embora os mais gritantes
ultrajes sejam cometidos todos os dias, nunca
se cogita de fazer cumprir essa lei, e o escravo
não tem outra alternativa senão
fugir ...
Quando trazidos de volta, além de açoitados,
eles passam a ser distinguidos por uma marca
que lhes é colocada ao redor do pescoço
e é muito estranha. Trata-se de um
colar de ferro, do qual se projeta quase em
ângulo reto uma barra também
de ferro terminada por uma cruz ou algo semelhante
a uma flor de liz. A finalidade desse colar
é não só estigmatizá-los
como escravos fujões mas também
dificultar a sua fuga, já que, ao tentarem
abrir caminho no meio do mato a barra de ferro
se embaraçaria nos arbustos e acabaria
por estrangulá-los. Às vezes,
a barra termina em cinco pontas, como se fossem
dedos e isso implica que o escravo fugiu levando
alguma coisa que não lhe pertencia,
sendo por conseguinte, além de fujão,
ladrão. A multidão de escravos
vistos nas ruas com esse colar de ferro é
uma prova de como é grande o número
dos que estão sempre tentando fugir,
e também uma prova de como lhes é
insuportável o tipo de vida que levam
...”
(Robert Walsh. Notícias
do Brasil ((828-1829). Belo Horizonte-Itatiaia,
São Paulo-EDUSP, 1985. vol. 2, pp.
131, 160.) |
|
“Um
departamento da Casa de Correção
é apropriado ao castigo dos escravos,
que para aí são mandados a fim
de serem punidos por desobediência ou
por faltas pequenas. São recebidos
a qualquer hora do dia e da noite, e retidos
livros de despesas, tanto tempo quanto seus
senhores o quiserem. Seria de estranhar que
não se dessem, aí, as vezes,
cenas de extrema crueldade.
As punições da Casa de Correção
não são, entretanto, o único
castigo que recebem os escravos insubmissos.
Há punições especiais,
e, entre as mais comuns, figuram – a máscara
de estanho, o colar de ferro, e os pesos e
correntes. As últimas duas se destinam
aos fujões; porém a máscara
de estanho é muitas vezes colocada
no rosto para evitar que os escravos da cidade
bebam cachaça, e os escravos do interior
comam terra, medida que se aplica também
a muitos negros do campo. Essa mania, pois
não se pode chamar de outra maneira,
quando não dominada, causa moleza,
doença e morte.”
(Daniel P. Kidder e J. C.
Fletcher. O Brasil e os brasileiros. São
Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1941. p. 173.) |
|
“Um
dos castigos mais cruéis é o
‘tronco’, duas tábuas ligadas entre
si por dobradiças, tendo os orifícios
necessários para prenderem o culpado
pelos tornozelos ou os braços, ou o
pescoço, que fica assim preso, deitado
no chão. Prisões em celas isoladas
e escuras, agravadas com jejum, castigos durante
os quais ficam as vítimas acorrentadas
– modalidades extremamente refinadas da arte
de torturar – são aplicadas nos casos
de reincidência, os castigos excedem
em muito qualquer princípio de humanidade
mesmo nos casos de crimes graves cometidos
por escravos, os amos costumam exercer privadamente
justiça, pois se entregassem o criminoso
à justiça pública e fosse
ele condenado à morte ou à pena
longa, o fazendeiro, além de perder
o escravo, ficaria ainda sujeito a despesas
e outros incômodos ...
Em
agosto de 1861, os jornais brasileiros publicaram
os pormenores de outro caso idêntico,
ocorrido em uma fazenda do município
de Lorena, província de São
Paulo. Certo fazendeiro português, chamado
Antonio Pereira Cardozo, assassinara de modo
bárbaro, quinze de seus escravos. Uns
tinham morrido de consunção,
depois de terem sido submetidos a um regime
de uma caneca de água de arroz diária,
além de serem terrivelmente chibatados
à manhã e à noite, tortura
a que resistiram de 10 a 12 dias. Outros eram
suspensos pelos baços e vergastados
até morrerem. Como os rumores destas
monstruosidades tivessem chegado ao conhecimento
do público, Cardozo fez suspender um
escravo na trave da porta, depois de haver
morto outro a chibatadas. Convidou depois
as autoridades a virem verificar o suicídio
do escravo, pensando poder com tal expediente
desmentir os rumores que circulavam. Mas o
juiz municipal recebera a denúncia
de que Cardozo inumara 14 de seus escravos
no pátio da fazenda, em campo aberto.
O delegado de polícia resolveu, pois,
uma busca no local, a fim de, encontrados
os cadáveres, ficar de posse de prova
irrefutável do crime.”
(Johann Jakob von Tschudi.
Viagem às províncias do Rio
de Janeiro e São Paulo. Belo Horizonte-Itatiaia;
São Paulo-EDUSP, 1980. pp. 56, 173.) |
|
"[...]
Não há trabalho, nem gênero
de vida no mundo mais parecido à cruz
e à paixão de Cristo, que o
vosso em um destes engenhos [...] Bem-aventurados
vós se soubéreis conhecer a
fortuna do vosso estado, e com a conformidade
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
e imitação de tão alta
e divina semelhança aproveitar e santificar
o trabalho!
Em um engenho saís imitadores de Cristo
crucificado: [...) porque padeceis de um modo
muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu
na sua cruz, e em toda a sua paixão.
A sua cruz foi composta de dois madeiros,
e a vossa em um engenho é de três.
Também ali não faltaram as canas,
porque duas vezes entraram na paixão:
uma vez servindo para o cetro de escárnio,
e outra vez para a esponja em que lhe deram
o fel. A paixão de Cristo parte foi
de noite sem dormir, parte foi de dia sem
descansar, e tais são as vossas noites
e os vossos dias. Cristo despido, e vós
despidos; Cristo sem comer, e vós famintos;
Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados
em tudo. Os ferros, as prisões, os
açoites, as chagas, os nomes afrontosos,
de tudo isto se compõe a vossa imitação,
que, se for acompanhada de paciência,
também terá merecimento de martírio.
Só lhe faltava a cruz para a inteira
e perfeita semelhança o nome de engenho;
mas este mesmo lhe deu Cristo não com
outro, senão com o próprio vocábulo.
“Torcular” se chama o vosso engenho, ou a
vossa cruz, e a de Cristo, por boca do mesmo
Cristo, se chamou também “Torcular”
[...] Em todas as invenções
e instrumentos de trabalho parece que não
achou o Senhor outro que mais parecido fosse
com o seu, que o vosso. A propriedade e energia
desta comparação, é porque
no instrumento da cruz e na oficina de toda
a paixão, assim como nas outras em
que se espreme o sumo dos frutos, assim foi
espremido todo o sangue da humanidade sagrada
[...] E se então se queixava o Senhor
de padecer só [...) e de não
haver nenhum dos gentios que o acompanhasse
em suas penas [...] vede vós quanto
estimara agora que os que ontem foram gentios,
conformando-se com a vontade de Deus na sua
sorte, lhe façam por imitação
tão boa companhia!
Mas para que esta primeira parte da imitação
dos trabalhos da cruz o seja também
nos afetos – que é a segunda e principal
– ; assim como no meio dos seus trabalhos
e tormentos se não esqueceu o Senhor
de sua piedosíssima Mãe, encomendando-a
ao discípulo amado, assim vos não
haveis vós de esquecer da mesma Senhora,
encomendando-vos muito particularmente na
sua memória, e oferecendo-lhe a vossa
[...]
E como a natureza gerou os pretos da mesma
cor da sua fortuna [...] quis Deus que nascessem
à fé debaixo do signo da sua
paixão e que ela, assim como lhe havia
de ser o exemplo para a paciência, lhe
fosse também o alívio para o
trabalho. Enfim, que de todos os mistérios
da vida, morte e ressurreição
de Cristo, os que pertencem por condição
aos pretos, e como por herança, são
os dolorosos.
Destes devem ser mais devotos, e nestes se
devem mais exercitar, acompanhando a Cristo
neles, como fez São João na
sua cruz. Mas assim como entre todos os mistérios
do rosário estes são os que
mais propriamente pertencem aos pretos; assim
entre todos os pretos, os que mais particularmente
os devem imitar e meditar são os que
servem e trabalham nos engenhos, pela semelhança
e rigor do mesmo trabalho. Encarecendo o mesmo
Redentor o muito que padeceu em sua sagrada
paixão, que são os mistérios
dolorosos, compara as suas dores às
penas do inferno [...] E que coisa há
na confusão deste mundo mais semelhante
ao inferno que qualquer destes vossos engenhos,
e tanto mais, quanto de maior fábrica?
Por isso foi tão bem recebida aquela
breve e discreta definição de
quem chamou a um engenho de açúcar
“doce inferno”. E verdadeiramente, quem vir
na escuridade da noite aquelas fornalhas tremendas,
perpetuamente ardentes; as labaredas que estão
saindo a borbotões de cada uma pelas
duas bocas, ou ventas, por onde respiram o
incêndio; os etíopes, ou ciclopes,
banhados em suor tão negros como robustos
que subministram a grossa e dura matéria
ao fogo, e os forcados com que o revolvem
e atiçam; as caldeiras ou lagos ferventes
com os cachões sempre batidos e rebatidos,
já vomitando espumas, exalando nuvens
de vapores, mais de calor que de fumo, e tornando-os
a chover para outra vez os exalar; o ruído
das rodas, das cadeias, da gente toda da cor
da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo
tudo ao mesmo tempo, sem momento de tréguas,
nem de descanso; quem vir enfim toda a máquina
e aparato confuso e estrondoso daquela Babilônia,
não poderá duvidar, ainda que
tenha visto Etnas e Vesúvios, que é
uma semelhança de inferno. Mas, se
entre todo esse ruído, as vozes que
se ouvirem forem as do rosário, orando
e meditando os mistérios dolorosos,
todo esse inferno se converterá em
paraíso; o ruído, em harmonia
celestial; e os homens, posto que pretos,
em anjos [...]
Os
dolorosos [...] são os que vos pertencem
a vós, como os gozosos aos que, devendo-vos
tratar como irmãos, se chamam vossos
senhores. Eles mandam, e vós servis;
eles dormem, e vós velais; eles descansam,
e vós trabalhais; eles gozam o fruto
de vossos trabalhos, e o que vós colheis
deles é um trabalho sobre outro. Não
há trabalhos mais doces que os das
vossas oficinas; mas toda essa doçura
para quem é? Saís como as abelhas
[...] As abelhas fabricam o mel, sim; mas
não para si. E posto que os que o logram
é com tão diferente fortuna
da vossa; se vós porém vos souberdes
aproveitar dela, e conformá-la com
o exemplo e paciência de Cristo, eu
vos prometo primeiramente que esses mesmos
trabalhos vos sejam muito doces, como foram
ao mesmo Senhor [...] e que depois – que é
o que só importa – assim como agora
imitando a São João, saís
companheiros de Cristo nos mistérios
dolorosos de sua cruz; assim o sereis nos
gloriosos da sua ressurreição
e ascensão. Não é promessa
minha, senão de São Paulo [...]
Assim como Deus vos fez herdeiros de suas
penas, assim o sereis também de suas
glórias; com condição
porém que não só padeçais
o que padeceis, senão que padeçais
com o mesmo Senhor [...]
Oh como quisera e fora justo que também
vossos senhores considerassem bem aquela conseqüência
[...] Todos querem ir à glória
e ser glorificados com Cristo; mas não
querem padecer, nem ter parte na cruz com
Cristo. Não é isto o que nos
ensinou a Senhora do Rosário na ordem
e disposição do mesmo rosário.
Depois dos mistérios gozosos, pôs
os dolorosos, e depois dos dolorosos, os gloriosos.
Por quê? Porque os gostos desta vida
têm por conseqüência as penas,
e as penas, pelo contrário, as glórias.
E se esta é a ordem que Deus guardou
com seu Filho, e com sua Mãe, vejam
os demais o que fará com eles. Mais
inveja devem ter vossos senhores às
vossas penas, do que vós aos seus gostos,
a que servis com tanto trabalho [...]"
(Pe. Antônio Vieira.
Sermões do rosário: sermão
décimo quarto (1633)) |
|
|
|
 |
 |