CLIO História - Biblioteca: Banco de Imagens - Escravos
         
CLIO História
Prof. Almir Ribeiro
Banco de Imagens
ESCRAVOS: AS MÃOS E OS PÉS...
::: Introdução
::: O tráfico
::: O mercado
::: O trabalho
::: O cotidiano
::: A violência
::: A resistência
::: Abolição
::: Todas as imagens
 
Bibliografia
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Feitores“Quando um escravo comete um crime, as autoridades se encarregam de puni-lo (...) ; mas quando ele se limita a descontentar o senhor pela sua embriaguez, preguiça, imprudência ou pequeninos roubos este o pode punir como bem entende. Em verdade, existem leis que impõem certos limites ao arbítrio e à cólera dos senhores, como por exemplo a que fixa o número de chicotadas que é permitido infringir de uma só vez, ao escravo, sem a intervenção da autoridade; entretanto (...) essas leis não têm força e talvez mesmo sejam desconhecidas da maioria dos escravos e senhores; por outro lado, as autoridades se encontram tão afastadas que, na realidade, o castigo do escravo por uma falta verdadeira ou imaginária, ou os maus tratos resultantes do capricho e da crueldade do senhor só encontram limites no medo de perder o escravo, pela morte ou pela fuga ou no respeito à opinião pública. Mas essas considerações nem sempre são suficientes para impedir o mal e é inegável que não faltem exemplos de crueldades impunes, que provocam a mutilação ou a morte de escravos ...

Áçoite(...) os delitos graves são punidos com o chicote; para as faltas menores usa-se a palmatória. Essas correções são quase sempre administradas em presença de todos os escravos. É de desejar-se, sem dúvida, que o uso do chicote se pouco a pouco completamente abolido, o que se pode esperar para breve, pois o interesse dos colonos se concilia perfeitamente com essa abolição. A experiência provou, com efeito, que nada estraga mais um escravo e lhe diminui o valor do que o uso freqüente do chicote, que destrói nele o sentimento de honra. E se, é verdade que os maus escravos são os mais corrigidos, também é verdade que há nisso uma contínua e infeliz reciprocidade de causa e efeito. De resto, os escravos se habituam tão rapidamente a esse gênero de dor, que muitas vezes lhes acontece suplicarem a seus senhores fazê-los chicotear, de preferência a encarcerá-los, mesmo durante pouco tempo. O melhor meio de manter os escravos no dever, com a severidade necessária e sem crueldade, é encarcerá-los durante certo tempo, principalmente nos dias que lhes são reservados, e sem outras privações que a da luz. Passar um só dia na obscuridade, sem alimentos, é uma coisa que o negro teme muito mais que as chicotadas.”

(Johann-Moritz Rugendas. Viagens pitoresca através do Brasil. São Paulo, Martins-EDUSP, 1972. p. 158.)

“O rancho era espaçoso e lúgubre, como um estábulo, sendo mantido por uma mulher, que morava ali com cinco ou seis negros. Era jovem e bastante bonita, mas naquele momento achava-se evidentemente embriagada. Fiquei sabendo que ela tinha sido uma mulher de costumes livres quando morava no Rio e que tinha dois filhos ilegítimos. Havia alugado aquele rancho e fizera de um dos negros seu sócio e amante. De todas as mulheres que já constituíram uma vergonha para o seu sexo, aquela ali – creio eu – era uma das piores. Depois de ter esvaziado uma garrafa de cachaça, a qual, como pude ver quando passei pela venda, ela levava constantemente à boca, a mulher veio para fora, com as faces afogueadas e um chicote na mão – a própria personificação de Tisífone. Um dos seus escravos era um pobre menino de doze anos sobre o qual ela descarregava todos os seus impulsos malignos. Toda vez que o encontrava, ela o atacava a chicotadas, no rosto, no corpo, deixando-o depois gemendo e sangrando, e isso sem nenhuma razão a não ser por simples e cruel capricho.

Castigos domésticos(...) Para conter a violência dos amos, estes estão sujeitos a uma multa se maltratarem um seu escravo, mas nem uma parcela dessa multa vai para a infortunada vítima. Uma pessoa poderá ser obrigada a passar o seu escravo para outra, se ficar provado que o maltrata, mas embora os mais gritantes ultrajes sejam cometidos todos os dias, nunca se cogita de fazer cumprir essa lei, e o escravo não tem outra alternativa senão fugir ...

Colar Quando trazidos de volta, além de açoitados, eles passam a ser distinguidos por uma marca que lhes é colocada ao redor do pescoço e é muito estranha. Trata-se de um colar de ferro, do qual se projeta quase em ângulo reto uma barra também de ferro terminada por uma cruz ou algo semelhante a uma flor de liz. A finalidade desse colar é não só estigmatizá-los como escravos fujões mas também dificultar a sua fuga, já que, ao tentarem abrir caminho no meio do mato a barra de ferro se embaraçaria nos arbustos e acabaria por estrangulá-los. Às vezes, a barra termina em cinco pontas, como se fossem dedos e isso implica que o escravo fugiu levando alguma coisa que não lhe pertencia, sendo por conseguinte, além de fujão, ladrão. A multidão de escravos vistos nas ruas com esse colar de ferro é uma prova de como é grande o número dos que estão sempre tentando fugir, e também uma prova de como lhes é insuportável o tipo de vida que levam ...”

(Robert Walsh. Notícias do Brasil ((828-1829). Belo Horizonte-Itatiaia, São Paulo-EDUSP, 1985. vol. 2, pp. 131, 160.)

Castigo público“Um departamento da Casa de Correção é apropriado ao castigo dos escravos, que para aí são mandados a fim de serem punidos por desobediência ou por faltas pequenas. São recebidos a qualquer hora do dia e da noite, e retidos livros de despesas, tanto tempo quanto seus senhores o quiserem. Seria de estranhar que não se dessem, aí, as vezes, cenas de extrema crueldade.
As punições da Casa de Correção não são, entretanto, o único castigo que recebem os escravos insubmissos. Há punições especiais, e, entre as mais comuns, figuram – a máscara de estanho, o colar de ferro, e os pesos e correntes. As últimas duas se destinam aos fujões; porém a máscara de estanho é muitas vezes colocada no rosto para evitar que os escravos da cidade bebam cachaça, e os escravos do interior comam terra, medida que se aplica também a muitos negros do campo. Essa mania, pois não se pode chamar de outra maneira, quando não dominada, causa moleza, doença e morte.”

(Daniel P. Kidder e J. C. Fletcher. O Brasil e os brasileiros. São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1941. p. 173.)

Tronco“Um dos castigos mais cruéis é o ‘tronco’, duas tábuas ligadas entre si por dobradiças, tendo os orifícios necessários para prenderem o culpado pelos tornozelos ou os braços, ou o pescoço, que fica assim preso, deitado no chão. Prisões em celas isoladas e escuras, agravadas com jejum, castigos durante os quais ficam as vítimas acorrentadas – modalidades extremamente refinadas da arte de torturar – são aplicadas nos casos de reincidência, os castigos excedem em muito qualquer princípio de humanidade mesmo nos casos de crimes graves cometidos por escravos, os amos costumam exercer privadamente justiça, pois se entregassem o criminoso à justiça pública e fosse ele condenado à morte ou à pena longa, o fazendeiro, além de perder o escravo, ficaria ainda sujeito a despesas e outros incômodos ...
MáscaraEm agosto de 1861, os jornais brasileiros publicaram os pormenores de outro caso idêntico, ocorrido em uma fazenda do município de Lorena, província de São Paulo. Certo fazendeiro português, chamado Antonio Pereira Cardozo, assassinara de modo bárbaro, quinze de seus escravos. Uns tinham morrido de consunção, depois de terem sido submetidos a um regime de uma caneca de água de arroz diária, além de serem terrivelmente chibatados à manhã e à noite, tortura a que resistiram de 10 a 12 dias. Outros eram suspensos pelos baços e vergastados até morrerem. Como os rumores destas monstruosidades tivessem chegado ao conhecimento do público, Cardozo fez suspender um escravo na trave da porta, depois de haver morto outro a chibatadas. Convidou depois as autoridades a virem verificar o suicídio do escravo, pensando poder com tal expediente desmentir os rumores que circulavam. Mas o juiz municipal recebera a denúncia de que Cardozo inumara 14 de seus escravos no pátio da fazenda, em campo aberto. O delegado de polícia resolveu, pois, uma busca no local, a fim de, encontrados os cadáveres, ficar de posse de prova irrefutável do crime.”

(Johann Jakob von Tschudi. Viagem às províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. Belo Horizonte-Itatiaia; São Paulo-EDUSP, 1980. pp. 56, 173.)

Dor"[...] Não há trabalho, nem gênero de vida no mundo mais parecido à cruz e à paixão de Cristo, que o vosso em um destes engenhos [...] Bem-aventurados vós se soubéreis conhecer a fortuna do vosso estado, e com a conformidade
e imitação de tão alta e divina semelhança aproveitar e santificar o trabalho!
Em um engenho saís imitadores de Cristo crucificado: [...) porque padeceis de um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz, e em toda a sua paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho é de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na paixão: uma vez servindo para o cetro de escárnio, e outra vez para a esponja em que lhe deram o fel. A paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto se compõe a vossa imitação, que, se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio. Só lhe faltava a cruz para a inteira e perfeita semelhança o nome de engenho; mas este mesmo lhe deu Cristo não com outro, senão com o próprio vocábulo. “Torcular” se chama o vosso engenho, ou a vossa cruz, e a de Cristo, por boca do mesmo Cristo, se chamou também “Torcular” [...] Em todas as invenções e instrumentos de trabalho parece que não achou o Senhor outro que mais parecido fosse com o seu, que o vosso. A propriedade e energia desta comparação, é porque no instrumento da cruz e na oficina de toda a paixão, assim como nas outras em que se espreme o sumo dos frutos, assim foi espremido todo o sangue da humanidade sagrada [...] E se então se queixava o Senhor de padecer só [...) e de não haver nenhum dos gentios que o acompanhasse em suas penas [...] vede vós quanto estimara agora que os que ontem foram gentios, conformando-se com a vontade de Deus na sua sorte, lhe façam por imitação tão boa companhia!
Mas para que esta primeira parte da imitação dos trabalhos da cruz o seja também nos afetos – que é a segunda e principal – ; assim como no meio dos seus trabalhos e tormentos se não esqueceu o Senhor de sua piedosíssima Mãe, encomendando-a ao discípulo amado, assim vos não haveis vós de esquecer da mesma Senhora, encomendando-vos muito particularmente na sua memória, e oferecendo-lhe a vossa Benção[...] E como a natureza gerou os pretos da mesma cor da sua fortuna [...] quis Deus que nascessem à fé debaixo do signo da sua paixão e que ela, assim como lhe havia de ser o exemplo para a paciência, lhe fosse também o alívio para o trabalho. Enfim, que de todos os mistérios da vida, morte e ressurreição de Cristo, os que pertencem por condição aos pretos, e como por herança, são os dolorosos.
Destes devem ser mais devotos, e nestes se devem mais exercitar, acompanhando a Cristo neles, como fez São João na sua cruz. Mas assim como entre todos os mistérios do rosário estes são os que mais propriamente pertencem aos pretos; assim entre todos os pretos, os que mais particularmente os devem imitar e meditar são os que servem e trabalham nos engenhos, pela semelhança e rigor do mesmo trabalho. Encarecendo o mesmo Redentor o muito que padeceu em sua sagrada paixão, que são os mistérios dolorosos, compara as suas dores às penas do inferno [...] E que coisa há na confusão deste mundo mais semelhante ao inferno que qualquer destes vossos engenhos, e tanto mais, quanto de maior fábrica? Por isso foi tão bem recebida aquela breve e discreta definição de quem chamou a um engenho de açúcar “doce inferno”. E verdadeiramente, quem vir na escuridade da noite aquelas fornalhas tremendas, perpetuamente ardentes; as labaredas que estão saindo a borbotões de cada uma pelas duas bocas, ou ventas, por onde respiram o incêndio; os etíopes, ou ciclopes, banhados em suor tão negros como robustos que subministram a grossa e dura matéria ao fogo, e os forcados com que o revolvem e atiçam; as caldeiras ou lagos ferventes com os cachões sempre batidos e rebatidos, já vomitando espumas, exalando nuvens de vapores, mais de calor que de fumo, e tornando-os a chover para outra vez os exalar; o ruído das rodas, das cadeias, da gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo, sem momento de tréguas, nem de descanso; quem vir enfim toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilônia, não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança de inferno. Mas, se entre todo esse ruído, as vozes que se ouvirem forem as do rosário, orando e meditando os mistérios dolorosos, todo esse inferno se converterá em paraíso; o ruído, em harmonia celestial; e os homens, posto que pretos, em anjos [...]
Castigos...Os dolorosos [...] são os que vos pertencem a vós, como os gozosos aos que, devendo-vos tratar como irmãos, se chamam vossos senhores. Eles mandam, e vós servis; eles dormem, e vós velais; eles descansam, e vós trabalhais; eles gozam o fruto de vossos trabalhos, e o que vós colheis deles é um trabalho sobre outro. Não há trabalhos mais doces que os das vossas oficinas; mas toda essa doçura para quem é? Saís como as abelhas [...] As abelhas fabricam o mel, sim; mas não para si. E posto que os que o logram é com tão diferente fortuna da vossa; se vós porém vos souberdes aproveitar dela, e conformá-la com o exemplo e paciência de Cristo, eu vos prometo primeiramente que esses mesmos trabalhos vos sejam muito doces, como foram ao mesmo Senhor [...] e que depois – que é o que só importa – assim como agora imitando a São João, saís companheiros de Cristo nos mistérios dolorosos de sua cruz; assim o sereis nos gloriosos da sua ressurreição e ascensão. Não é promessa minha, senão de São Paulo [...] Assim como Deus vos fez herdeiros de suas penas, assim o sereis também de suas glórias; com condição porém que não só padeçais o que padeceis, senão que padeçais com o mesmo Senhor [...]
Oh como quisera e fora justo que também vossos senhores considerassem bem aquela conseqüência [...] Todos querem ir à glória e ser glorificados com Cristo; mas não querem padecer, nem ter parte na cruz com Cristo. Não é isto o que nos ensinou a Senhora do Rosário na ordem e disposição do mesmo rosário. Depois dos mistérios gozosos, pôs os dolorosos, e depois dos dolorosos, os gloriosos. Por quê? Porque os gostos desta vida têm por conseqüência as penas, e as penas, pelo contrário, as glórias. E se esta é a ordem que Deus guardou com seu Filho, e com sua Mãe, vejam os demais o que fará com eles. Mais inveja devem ter vossos senhores às vossas penas, do que vós aos seus gostos, a que servis com tanto trabalho [...]"

(Pe. Antônio Vieira. Sermões do rosário: sermão décimo quarto (1633))

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