CLIO História - Biblioteca: Banco de Imagens - Escravos
         
CLIO História
Prof. Almir Ribeiro
Banco de Imagens
ESCRAVOS: AS MÃOS E OS PÉS...
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::: O tráfico
::: O mercado
::: O trabalho
::: O cotidiano
::: A violência
::: A resistência
::: Abolição
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Bibliografia
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A carga“Embarcam-se, anualmente, cerca de 120.000 negros da Costa da África, unicamente para o Brasil, e é raro chegarem a seu destino mais de 80 a 90 mil. Perde-se, portanto, cerca de 1/3 durante uma travessia de dois meses e meio a 3 meses. Reflita-se sobre a impressão cruel do negro diante da separação violenta de tudo que lhe é caro, sobre os efeitos do mais profundo abatimento ou a mais terrível exaltação de espírito unidos às privações do corpo e aos sofrimentos da viagem, e nada terão de estranho tão incríveis resultados. Esses infelizes são amontoados num compartimento cuja altura raramente ultrapassa 5 pés. Esse cárcere ocupa todo o comprimento e a largura do porão do navio; aí são eles reunidos em número de 200 a 300, de modo que para cada homem adulto se reserva apenas um espaço de 5 pés cúbicos. Certos relatórios oficiais apresentados ao parlamento, a respeito do tráfico no Brasil permitem afirmar que no porão de muitos navios o espaço disponível para cada indivíduo se reduz a 4 pés cúbicos c a altura da ponte não ultrapassa tampouco 4 pés. Os escravos são aí amontoados de encontro às paredes do navio e em torno do mastro; onde quer que haja lugar para uma criatura humana, e qualquer que seja a posição que se lhe faça tomar, aproveita-se. O mais das vezes, as paredes comportam, a meia altura, uma espécie de prateleira de madeira sobre a qual jaz uma segunda camada de corpos humanos. Todos, principalmente, nos primeiros tempos de travessia, têm algemas nos pés e nas mãos e são presos uns aos outros por uma comprida corrente.

Acrescentamos a essa deplorável situação, o calor ardente do Equador, as fúrias das tempestades e a alimentação, a que não estão acostumados, de feijão e carne salgada, a falta d’água, finalmente, conseqüência quase sempre inevitável da cobiça em virtude da qual se aproveita o menor espaço para tornar a carga mais rica, e teremos a razão da enorme mortalidade a bordo dos navios negreiros. Às vezes acontece ficar um cadáver vários dias entre os vivos. A falta d’água é a causa mais freqüente das revoltas dos negros; mas, ao menor sinal de sedição, não sc distingue ninguém; fazem-se impiedosas descargas de fuzil nesse antro atravancado de homens, mulheres e crianças. Acontece que, desvairados pelo desespero, os negros furiosos se atiram contra seus companheiros ou rasgam cm pedaços seus próprios membros.”

(Johann-Moritz Rugendas. Viagem pitoresca através do Brasil. São Paulo, Martins-EDUSP, 1972. p. 136.)

Negreiro"Quando a escravatura trazida de muitas partes chega aos portos marítimos da África, aí é segunda vez permutada por fazenda e gêneros a comerciantes, que ali têm casa de negócio assentada para este fim: fazendo a escravatura sua por este troco, a conservam por tempo em o mesmo libambo; e quando assim não são conservados os escravos, são metidos em um pátio seguro, de altas paredes, que não podem pela mesma escravatura ser saltadas, ficando ali ao tempo; e de noite há um telheiro, ou armazém também térreos onde é recolhida.

A ração lhe continua a ser escassa do mesmo modo, e sem tempero, à exceção do sal, que em os portos marítimos já há em maior abundância: o alimento se reduz ao feijão umas vezes, a outras ao milho, outras ao feijão misturado com o milho por variedade. Ajuntando-lhe demais à comida uma pequena parte de peixe salgado, de que abunda o Reino de Angola pela extração do azeite. Por variedade lhe costumam dar a savelha, peixe miúdo e barato, muito mais do que entre nós a sardinha: mas prejudica à saúde, e com tanta infalibilidade, que os habitantes estabelecidos em aqueles portos dele se abstêm pelo reconhecido prejuízo que lhes causa.

Por se achar a escravatura vizinha ao mar, a mandam em pelotões, a que chamam lotes, lavar ao mar. Com a escravatura não despendem vestuário algum, porque lhe fazem conservar o pouco que ela traz: e se este lhe falta, permanece quase nua; porque não querem entrar com ela em despesa, tanto por se persuadirem, que a escravatura lhes fica mais cara, como porque cada hora a esperam negociar com aqueles que a hão de transportar para o Brasil.

Nesta situação, e economia se conserva por semanas, e por meses a escravatura, e é grande a quantidade dela que morre; de sorte, que descendo a Luanda em cada um ano de dez a doze mil escravos, muitas vezes sucede que só chegam a ser transportados de seis a sete mil para o Brasil. Entrando-se neste cálculo por toda a Costa de Leste, ele não é bastante para desenganar aos comissários, que ali há de estadia negociando em escravatura; de que o mau trato, que se lhe continua quando ela chega cansada, e destroçada de uma tão longa viagem, é a causa de tanta mortandade. Seria proveitoso a eles, e a esta porção de humanidade desgraçada, que em vez de negociarem anualmente cada um deles em quinhentos a seiscentos escravos, e até mil, negociassem em muito menor número, e os escravos fossem tratados, como deviam ser; pois que não podem existir, e durar, faltando-lhes com o preciso.

Como porém aquele giro de comércio se chama florente, uma vez que recebem a escravatura, e logo a passam aos que ali em navios vão negociar, e permutar escravos; não se atende pela maior parte aos cômodos da mesma escravatura, e conservação da saúde dela.

Esta porção de escravatura, que se vai apurando de mão em mão, com resistência a tantos contratempos, de que vai escapando pela força da robustez; entregue aos capitães dos navios, que por último a permutam, é metida, e fechada debaixo da escotilha do navio transportador. Estes querendo adiantar também os seus interesses, se propõem a três fins: 1º o de permutar e de fazer sua a escravatura pelo mais barato que possa ser; 2º o de meter, e o de transportar em um navio, quanto lhes seja possível, a maior porção dela; 3º que com ela se despenda o menos, que possa ser no seu transporte.

Metidos os pretos escravos debaixo de escotilha, e aferrolhados, ainda aí se observa a maior força da sua robustez; porque ai lhes entra a faltar tudo, muito mais do que em terra. Em primeiro lugar sendo metidos duzentos, e trezentos escravos na coberta, e na escotilha, lhes falta a respiração; porque nada mais tem por onde o ar se lhes possa comunicar, senão pela grade da escotilha, e por umas pequenas frestas.
Em segundo lugar a escravatura embarcada tem uma curtíssima ração de água, e esta amornada pela ardência do clima; e é em tanto extremo a necessidade, que experimenta deste gênero, que a sede, que padece, dá causa a suscitarem-se diversas queixas epidêmicas: e depois de alguns dias de viagem, se entra a deitar escravatura ao mar.
Em terceiro lugar são maltratados os escravos, porque têm uma escassa ração de mantimentos, e pela maior parte de torna-viagem. Os referidos mantimentos não discrepam do feijão, do milho, e da farinha de pau, tudo malfeita, e intemperado para tantos; ajuntando-se-lhe apenas em cada ração uma pequena porção daquele mesmo peixe nocivo da Costa da África, que já vem derrancado pelo decurso da viagem [...]
Há portanto pois anualmente um sem-número de escravos transportados de toda a Costa da África ao Brasil; parece que refolgando a humanidade oprimida, seria um dia de triunfo, de glória, e de prazer para a mesma humanidade, que escapando a tantos perigos entrava no cristianismo, no centro, e na unidade da Igreja: porém assim não sucede, porque não sei se diga, que o remanescente de seus dias é mais desgraçado.
Desembarcada esta grande porção de escravatura na América, é conduzida para casa do comum senhor, que também o é do navio, e de toda a negociação. Ali para ser vista de todos, são os escravos postos, e mandados assentar em lotes, e com separação dos grandes aos pequenos, das pretas maiores e menores, na rua pela frente da propriedade do senhor; e quando à noite se faz preciso ser recolhida a escravatura, repousa em um grande armazém térreo, que fica por baixo da propriedade senhorial.

DesembarqueQuando esta porção de escravatura chega ao Brasil, consigo pensa, e bem, que entrando na terra prometida da abundância, e da fartura, nada lhe deve faltar; porém o contrário lhe sucede, porque por se querer liquidar a negociação pela menor despesa, a mesma escravatura se conserva sem novo vestuário; e encontra a economia de umas escassas rações, que de ordinário são feitas daqueles mantimentos, que o capitão fez durar por providência para maior tempo da viagem: e na terra da abundância, onde tudo é barato, não se supre melhor a maltratada escravatura, que acaba de uma tão alongada viagem.
Neste suprimento não entram os senhorios dela, porque todo o seu fim e intento vem a ser gastar pouco, e pôr fora com venda depressa a mesma escravatura: acometendo a esse tempo o maior número das enfermidades à escravatura, aos enfermos mandam às vezes persuadir pelos seus intérpretes, quando saem para a mostra da compra, que digam aos novos senhores, que estão bons; ao que são fáceis, porque cuidam, que vão buscar melhor fortuna: de sorte que da cama do chão, onde se acham gravemente enfermos, são levados, e passados aos compradores; e por conservarem por mais algum tempo o segredo da mentira até sucede que pouco duram em poder de terceiro; e não dão tempo a serem refugados, e na frase da terra enjeitados [...]

Passando o escravo pelo título da venda a novo senhor, ele se persuade
que escapou da opressão; porém de ordinário, ou se empregue nos serviços rústicos, ou urbanos, está vivendo em um contínuo martírio. Se o escravo se ocupa em o serviço urbano, ele sim é mais bem tratado pela comida, e pelo vestuário; porém se é comprado para servir a casa, há de dar conta de todo o serviço dela com repartição das horas, e é um fiador eterno dos bens da mesma casa. Se em alguma coisa discrepa, ou quanto faz não se amolda a um gênio sempre prevenido contra o humilde escravo, é logo mandado castigar.

Os escravos metidos nesta tortura, sustentando o horrível combate da vida com a morte, tremendo, e sendo obrigados a miúdo a comparecerem como réus: alguns tornam o fôlego, e morrem; outros passam navalhas às goelas; outros lançam-se aos poços; outros precipitam-se das janelas, das grandes alturas; outros finalmente matam a seus senhores [...]"

(Luís Antônio de Oliveira Mendes. Memória a respeito dos escravos e tráfico da escravatura entre a Costa d'África e o Brasil (1793)).

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