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“Embarcam-se,
anualmente, cerca de 120.000 negros da
Costa da África, unicamente para
o Brasil, e é raro chegarem a seu
destino mais de 80 a 90 mil. Perde-se,
portanto, cerca de 1/3 durante uma travessia
de dois meses e meio a 3 meses. Reflita-se
sobre a impressão cruel do negro
diante da separação violenta
de tudo que lhe é caro, sobre os
efeitos do mais profundo abatimento ou
a mais terrível exaltação
de espírito unidos às privações
do corpo e aos sofrimentos da viagem,
e nada terão de estranho tão
incríveis resultados. Esses infelizes
são amontoados num compartimento
cuja altura raramente ultrapassa 5 pés.
Esse cárcere ocupa todo o comprimento
e a largura do porão do navio;
aí são eles reunidos em
número de 200 a 300, de modo que
para cada homem adulto se reserva apenas
um espaço de 5 pés cúbicos.
Certos relatórios oficiais apresentados
ao parlamento, a respeito do tráfico
no Brasil permitem afirmar que no porão
de muitos navios o espaço disponível
para cada indivíduo se reduz a
4 pés cúbicos c a altura
da ponte não ultrapassa tampouco
4 pés. Os escravos são aí
amontoados de encontro às paredes
do navio e em torno do mastro; onde quer
que haja lugar para uma criatura humana,
e qualquer que seja a posição
que se lhe faça tomar, aproveita-se.
O mais das vezes, as paredes comportam,
a meia altura, uma espécie de prateleira
de madeira sobre a qual jaz uma segunda
camada de corpos humanos. Todos, principalmente,
nos primeiros tempos de travessia, têm
algemas nos pés e nas mãos
e são presos uns aos outros por
uma comprida corrente.
Acrescentamos a essa deplorável
situação, o calor ardente
do Equador, as fúrias das tempestades
e a alimentação, a que não
estão acostumados, de feijão
e carne salgada, a falta d’água,
finalmente, conseqüência quase
sempre inevitável da cobiça
em virtude da qual se aproveita o menor
espaço para tornar a carga mais
rica, e teremos a razão da enorme
mortalidade a bordo dos navios negreiros.
Às vezes acontece ficar um cadáver
vários dias entre os vivos. A falta
d’água é a causa mais freqüente
das revoltas dos negros; mas, ao menor
sinal de sedição, não
sc distingue ninguém; fazem-se
impiedosas descargas de fuzil nesse antro
atravancado de homens, mulheres e crianças.
Acontece que, desvairados pelo desespero,
os negros furiosos se atiram contra seus
companheiros ou rasgam cm pedaços
seus próprios membros.”
(Johann-Moritz Rugendas.
Viagem pitoresca através do Brasil.
São Paulo, Martins-EDUSP, 1972.
p. 136.)
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"Quando
a escravatura trazida de muitas partes chega
aos portos marítimos da África,
aí é segunda vez permutada por
fazenda e gêneros a comerciantes, que
ali têm casa de negócio assentada
para este fim: fazendo a escravatura sua por
este troco, a conservam por tempo em o mesmo
libambo; e quando assim não são
conservados os escravos, são metidos
em um pátio seguro, de altas paredes,
que não podem pela mesma escravatura
ser saltadas, ficando ali ao tempo; e de noite
há um telheiro, ou armazém também
térreos onde é recolhida.
A ração lhe continua a ser escassa
do mesmo modo, e sem tempero, à exceção
do sal, que em os portos marítimos
já há em maior abundância:
o alimento se reduz ao feijão umas
vezes, a outras ao milho, outras ao feijão
misturado com o milho por variedade. Ajuntando-lhe
demais à comida uma pequena parte de
peixe salgado, de que abunda o Reino de Angola
pela extração do azeite. Por
variedade lhe costumam dar a savelha, peixe
miúdo e barato, muito mais do que entre
nós a sardinha: mas prejudica à
saúde, e com tanta infalibilidade,
que os habitantes estabelecidos em aqueles
portos dele se abstêm pelo reconhecido
prejuízo que lhes causa.
Por se achar a escravatura vizinha ao mar,
a mandam em pelotões, a que chamam
lotes, lavar ao mar. Com a escravatura não
despendem vestuário algum, porque lhe
fazem conservar o pouco que ela traz: e se
este lhe falta, permanece quase nua; porque
não querem entrar com ela em despesa,
tanto por se persuadirem, que a escravatura
lhes fica mais cara, como porque cada hora
a esperam negociar com aqueles que a hão
de transportar para o Brasil.
Nesta situação, e economia se
conserva por semanas, e por meses a escravatura,
e é grande a quantidade dela que morre;
de sorte, que descendo a Luanda em cada um
ano de dez a doze mil escravos, muitas vezes
sucede que só chegam a ser transportados
de seis a sete mil para o Brasil. Entrando-se
neste cálculo por toda a Costa de Leste,
ele não é bastante para desenganar
aos comissários, que ali há
de estadia negociando em escravatura; de que
o mau trato, que se lhe continua quando ela
chega cansada, e destroçada de uma
tão longa viagem, é a causa
de tanta mortandade. Seria proveitoso a eles,
e a esta porção de humanidade
desgraçada, que em vez de negociarem
anualmente cada um deles em quinhentos a seiscentos
escravos, e até mil, negociassem em
muito menor número, e os escravos fossem
tratados, como deviam ser; pois que não
podem existir, e durar, faltando-lhes com
o preciso.
Como porém aquele giro de comércio
se chama florente, uma vez que recebem a escravatura,
e logo a passam aos que ali em navios vão
negociar, e permutar escravos; não
se atende pela maior parte aos cômodos
da mesma escravatura, e conservação
da saúde dela.
Esta porção de escravatura,
que se vai apurando de mão em mão,
com resistência a tantos contratempos,
de que vai escapando pela força da
robustez; entregue aos capitães dos
navios, que por último a permutam,
é metida, e fechada debaixo da escotilha
do navio transportador. Estes querendo adiantar
também os seus interesses, se propõem
a três fins: 1º o de permutar e
de fazer sua a escravatura pelo mais barato
que possa ser; 2º o de meter, e o de
transportar em um navio, quanto lhes seja
possível, a maior porção
dela; 3º que com ela se despenda o menos,
que possa ser no seu transporte.
Metidos os pretos escravos debaixo de escotilha,
e aferrolhados, ainda aí se observa
a maior força da sua robustez; porque
ai lhes entra a faltar tudo, muito mais do
que em terra. Em primeiro lugar sendo metidos
duzentos, e trezentos escravos na coberta,
e na escotilha, lhes falta a respiração;
porque nada mais tem por onde o ar se lhes
possa comunicar, senão pela grade da
escotilha, e por umas pequenas frestas.
Em segundo lugar a escravatura embarcada tem
uma curtíssima ração
de água, e esta amornada pela ardência
do clima; e é em tanto extremo a necessidade,
que experimenta deste gênero, que a
sede, que padece, dá causa a suscitarem-se
diversas queixas epidêmicas: e depois
de alguns dias de viagem, se entra a deitar
escravatura ao mar.
Em terceiro lugar são maltratados os
escravos, porque têm uma escassa ração
de mantimentos, e pela maior parte de torna-viagem.
Os referidos mantimentos não discrepam
do feijão, do milho, e da farinha de
pau, tudo malfeita, e intemperado para tantos;
ajuntando-se-lhe apenas em cada ração
uma pequena porção daquele mesmo
peixe nocivo da Costa da África, que
já vem derrancado pelo decurso da viagem
[...]
Há portanto pois anualmente um sem-número
de escravos transportados de toda a Costa
da África ao Brasil; parece que refolgando
a humanidade oprimida, seria um dia de triunfo,
de glória, e de prazer para a mesma
humanidade, que escapando a tantos perigos
entrava no cristianismo, no centro, e na unidade
da Igreja: porém assim não sucede,
porque não sei se diga, que o remanescente
de seus dias é mais desgraçado.
Desembarcada esta grande porção
de escravatura na América, é
conduzida para casa do comum senhor, que também
o é do navio, e de toda a negociação.
Ali para ser vista de todos, são os
escravos postos, e mandados assentar em lotes,
e com separação dos grandes
aos pequenos, das pretas maiores e menores,
na rua pela frente da propriedade do senhor;
e quando à noite se faz preciso ser
recolhida a escravatura, repousa em um grande
armazém térreo, que fica por
baixo da propriedade senhorial.
Quando
esta porção de escravatura chega
ao Brasil, consigo pensa, e bem, que entrando
na terra prometida da abundância, e
da fartura, nada lhe deve faltar; porém
o contrário lhe sucede, porque por
se querer liquidar a negociação
pela menor despesa, a mesma escravatura se
conserva sem novo vestuário; e encontra
a economia de umas escassas rações,
que de ordinário são feitas
daqueles mantimentos, que o capitão
fez durar por providência para maior
tempo da viagem: e na terra da abundância,
onde tudo é barato, não se supre
melhor a maltratada escravatura, que acaba
de uma tão alongada viagem.
Neste suprimento não entram os senhorios
dela, porque todo o seu fim e intento vem
a ser gastar pouco, e pôr fora com venda
depressa a mesma escravatura: acometendo a
esse tempo o maior número das enfermidades
à escravatura, aos enfermos mandam
às vezes persuadir pelos seus intérpretes,
quando saem para a mostra da compra, que digam
aos novos senhores, que estão bons;
ao que são fáceis, porque cuidam,
que vão buscar melhor fortuna: de sorte
que da cama do chão, onde se acham
gravemente enfermos, são levados, e
passados aos compradores; e por conservarem
por mais algum tempo o segredo da mentira
até sucede que pouco duram em poder
de terceiro; e não dão tempo
a serem refugados, e na frase da terra enjeitados
[...]
Passando o escravo pelo título da venda
a novo senhor, ele se persuade
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que escapou
da opressão; porém de ordinário,
ou se empregue nos serviços rústicos,
ou urbanos, está vivendo em um contínuo
martírio. Se o escravo se ocupa em
o serviço urbano, ele sim é
mais bem tratado pela comida, e pelo vestuário;
porém se é comprado para servir
a casa, há de dar conta de todo o serviço
dela com repartição das horas,
e é um fiador eterno dos bens da mesma
casa. Se em alguma coisa discrepa, ou quanto
faz não se amolda a um gênio
sempre prevenido contra o humilde escravo,
é logo mandado castigar.
Os escravos metidos nesta tortura, sustentando
o horrível combate da vida com a morte,
tremendo, e sendo obrigados a miúdo
a comparecerem como réus: alguns tornam
o fôlego, e morrem; outros passam navalhas
às goelas; outros lançam-se
aos poços; outros precipitam-se das
janelas, das grandes alturas; outros finalmente
matam a seus senhores [...]"
(Luís Antônio
de Oliveira Mendes. Memória a respeito
dos escravos e tráfico da escravatura
entre a Costa d'África e o Brasil
(1793)). |
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