|
|
Bibliografia
::: Ver citações ao final de cada
documento. |
|
| |
Clique nas imagens para ampliar.
Pode haver alguma demora na abertura devido ao
tamanho das imagens. |
|
| |
|
|
|
“Era
a época da colheita e o espetáculo
que tínhamos diante dos olhos era
verdadeiramente pitoresco. Os pretos,
homens e mulheres, estavam espalhados
pela plantação, trazendo
às costas amarrados às suas
roupas uma espécie de cesto feito
de caniços e bambus. Dentro dele
é que amontoavam os grãos
de café, uns vermelhos e brilhantes
como cerejas frescas, outros já
escuros e meio ressequidos, e, de quando
em vez, alguns ainda verdes, não
de todo maduros, mas não devendo
tardar em amadurecer sobre o solo abrasado
do terreiro. Pretinhos pequenos sentados
na terra ao pé dos arbustos ajuntavam
as cerejas caídas, cantando um
estribilho monótono que tem sua
harmonia e seu encanto; um deles faz o
canto e os outros o acompanham. Uma vez
cheios os cestos, vão mostrá-los
ao administrador que lhes dá uma
ficha de metal onde está marcado
o valor da tarefa executada. Cada qual
deve uma quantidade certa de trabalho:
tanto por homem, tanto por mulher, tanto
por criança, e cada qual é
pago do excedente que produz: o que se
exige deles é verdadeiramente moderado
e aqueles que não são preguiçosos
podem facilmente juntar um pequeno pecúlio.
Todas as tardes eles entregam as fichas
recebidas no decorrer do dia e recebem
o valor do excedente de trabalho livremente
executado. Do terreno em que se procedia
a colheita, nós acompanhávamos
os carrinhos até o lugar em que
o seu conteúdo é esvaziado.
Aí os negros dividem em lotes a
colheita do dia e arrumam em pequenos
montículos no terreiro, onde ainda
recebe por algum tempo os raios do sol”.
(Luís e Elizabeth
Agassiz. Viagem ao Brasil (1865- 1866).
São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1938.
p. 157.)
|
|
“(...)
Contam-se nesta propriedade [Fazenda dos Pinheiros]
cerca de dois mil escravos, dos quais trinta
empregados no serviço doméstico.
A habitação contém tudo
o que é necessário às
exigências duma tão numerosa
população: há uma farmácia
e um hospital, cozinhas para os hóspedes
e para os negros, uma capela, um padre, um
médico (...) A dona da casa nos fez
visitar, certa manhã, as diversas salas
de trabalho. A que mais nos interessou foi
aquela em que as meninas aprendem costura.
(...) Aqui todas as meninas aprendem a costurar
muito bem e muitas delas bordam e fazem renda
com perfeição. Em frente a essa
sala, vimos uma oficina de roupas (...) com
suas peças de lã ou de algodão,
que as negras cortam e costuram para os trabalhadores
do campo. As cozinhas, as oficinas e os quartos
dos negros circundam um páteo espaçoso
plantado de árvores e arbustos em volta
do qual há uma passagem coberta, calçada
de tijolos. Aí os pretos, jovens e
velhos, pareciam um formigueiro, desde a velha
ressequida que se gabava ela mesma de ter
cem anos, mas não mostrava com menor
orgulho o seu fino trabalho de renda e corria
como uma menina para que se visse como era
ainda ativa, até os pequerruchos todos
nus que engatinhavam a seus pés.
(...) No fim da noite os músicos foram
introduzidos nas salas e tivemos um espetáculo
de dança, dado por negrinhos que eram
dos mais cômicos. Como uns diabretes,
dançavam com tal rapidez de movimentos,
com tal animação de vida e de
alegria espontânea que era impossível
não os acompanhar.” (Luís
e Elizabeth Agassiz. Viagem ao Brasil (1865-1866).
São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1938.
pp. 164-165.) |
|
“Assim,
os escravos como as escravas se ocupam no
corte da cana; porém, comumente os
escravos cortam e as escravas amarram os feixes.
Consta o feixe de doze canas, e tem por obrigação
cada escravo cortar num dia sete mãos
de dez feixes por cada dedo, que são
trezentos e cinqüenta feixes e a escrava
há de amarrar outros tantos com os
olhos da mesma cana; e, se lhes sobejar tempo,
será para o gastarem livremente no
que quiserem. (...) E o contar a tarefa do
corte, como está dito, por mãos
e dedos, é para se acomodar à
rudeza dos escravos boçais, que de
outra sorte não entendem, nem sabem
contar.
O modo de cortar é o seguinte: pega-se
com a mão esquerda em tantas canas
quantas pode abarcar, e com a direita armada
de fouce se lhe tira a palha, a qual depois
se queima ou pela madrugada, ou já
de noite, quando, acalmando, o vento der para
isso lugar, e serve para fazer a terra mais
fértil; logo, levantando mais acima
a mão esquerda, batam-se fora com a
fouce os olhos da cana, e estes dão-se
aos bois a comer; e ultimamente, tornando
com a esquerda mais abaixo, corta-se rente
ao pé, e quanto a fouce for mais rasteira
à terra, melhor. Quem segue ao que
corta (que comumente é uma escrava)
ajunta as canas limpas, como está dito,
em feixes, a doze por feixe, e com os olhos
dela os vai atando; e assim atados, vão
nos carros ao porto, ou se o engenho for pela
terra dentro, chega o carro à moenda.
(...)
O
lugar de maior perigo que há no engenho
é o da moenda, porque, se por desgraça
a escrava que mete a cana entre os eixos,
ou por força do sono, ou por cansada,
ou por qualquer outro descuido, meteu desatentamente
a mão mais adiante do que devia, arrisca-se
a passar moída entre os eixos, se lhe
não cortarem logo a mão ou o
braço apanhado, tendo para isso junto
da moenda um facão, ou não forem
tão ligeiros em fazer parar a moenda
(...)
As escravas de que necessita a moenda, ao
menos, são sete ou oito, a saber: três
para trazer a cana, uma para a meter, outra
para passar o bagaço, outra para consertar
e acender as candeias, que na moenda são
cinco, e para alimpar o cacho do caldo (a
quem chamam cocheira ou calumbá) e
os aguilhões da moenda e refrescá-los
com água para que não ardam,
servindo-se para isso do parol da água,
que tem debaixo do rodete, e outra, finalmente,
para botar fora o bagaço, ou no rio,
ou na bagaceira, para se queimar a seu tempo.
E, se for necessário botá-lo
em parte mais distante, não bastará
uma só escrava, mas haverá mister
outra que a ajude, porque, de outra sorte,
não se daria vazão a tempo,
e ficaria embaraçada a moenda.
(...)
Junto
à casa da moenda, que chamam casa do
engenho, segue-se a casa das fornalhas, bocas
verdadeiramente tragadoras de matos, cárcere
de fogo e fumo perpétuo e viva imagem
dos vulcões, Vesúvios e Etnas
e quase disse, do Purgatório ou do
Inferno. Nem faltam perto destas fornalhas
seus condenados, que são os escravos
boubentos e os que têm corrimentos,
obrigados a esta penosa assistência
para purgarem com suor violento os humores
gálicos de que têm cheios seus
corpos. Vêem-se aí, também,
outros escravos, facinorosos, que, presos
em compridas e grossas correntes de ferro,
pagam neste trabalhoso exercício os
repetidos excessos de sua extraordinária
maldade, com pouca ou nenhuma esperança
de emenda.”
(André
João Antonil. Cultura e opulência
do Brasil. 3. ed., Belo Horizonte-Itatiaia,
São Paulo-EDUSP, 1982. pp. 106, 112,
115.) |
|
|
|
 |
 |