CLIO História - Biblioteca: Banco de Imagens - Escravos
         
CLIO História
Prof. Almir Ribeiro
Banco de Imagens
ESCRAVOS: AS MÃOS E OS PÉS...
::: Introdução
::: O tráfico
::: O mercado
::: O trabalho
::: O cotidiano
::: A violência
::: A resistência
::: Abolição
::: Todas as imagens
 
Bibliografia
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Fugitivo...“O número de negros e mulatos no país é estimado atualmente em 2.500.000, ao passo que o de brancos chega apenas a 850.000; por conseguinte, os primeiros excedem os últimos na proporção de 3 para 1. Devido a essa grande superioridade numérica, há muito tempo existem sérias apreensões de que, num momento qualquer, devido à presente difusão de doutrinas revolucionárias no continente, eles acabem por se dar conta da própria força e por afirmar sua própria independência (...) Isso se aplica particularmente à Bahia e Pernambuco, onde praticamente todos os negros foram trazidos da mesma parte da costa africana, havendo uma união e compreensão geral entre eles, já que falam a mesma língua e têm interesses comuns. Já tem havido ali várias conspirações e tentativas de revolta. Em abril de 1828, ocorreu uma insurreição parcial em alguns engenhos da Bahia e houve receio de que ela se espalhasse até Pernambuco. Mas no Rio a situação é diferente. A população é composta de oito ou nove castas diferentes, que não têm uma linguagem comum nem são ligadas umas às outras por nenhum laço, a tal ponto que freqüentemente eles se empenham em lutas e batalhas das quais chegam a participar até 200 indivíduos de uma nação de cada lado. Os brancos incentivam essa animosidade, procurando mantê-la viva, por acharem que ela está intimamente associada à sua própria segurança.”

(Robert Walsh. Notícias do Brasil (1828-1829). Belo Horizonte-Itatiaia, São Paulo-EDUSP, 1985. vol. 2, p. 154.)

Fugitivo“Segurança e Tranqüilidade Pública: Se excetuarmos alguns pequenos desaguisados, que têm ocorrido em vários municípios da Província, nascidos de intrigas próprias de povoações pequenas, e do abuso com que alguns juízes de paz se servem da terrível arma da pronúncia, em satisfação de ódios e ressentimentos particulares, e bem assim os acontecimentos ocorridos cm novembro próximo passado na fazenda do Capitão-mor Manoel Francisco Xavier, na freguesia do Paty do Alferes, cujos escravos em grande número se insubordinaram e fugiram, aquilomhando-se nos matos onde foram perseguidor logo, e presos, sendo depois devidamente castigados, pode assegurar-se que toda a Província tem gozado a mais profunda tranqüilidade ...”

(Relatório do Presidente da Província do Rio de Janeiro, Paulino José Soares de Souza de 01.03.1839. A.E.S.P., RPRJ/1838-1843.)

“... Além disso, os filhos dos escravos acham-se incluídos juntos com seus pais, por isto que pertencentes à mesma classe. E, é doloroso acrescentá-lo, usa-se dos meios da mais baixa espécie a fim de impedir o nascimento de crianças, sendo que infanticídio não é de forma alguma raro.”

(John Luccock. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. 2" ed., São Paulo, Livraria Martins Editora, 1951, p. 107.)

Escravos“Esse horror à escravidão chega a tal ponto que os negros, para escapar a ela, matam não só a si próprios como também os filhos. As mulheres negras têm fama de ser excelentes mães, e tive a oportunidade de ver sempre confirmada essa fama em todas as ocasiões; não obstante, essa mesma afeição que têm pelos filhos leva-as a cometer infanticídio. Muitas delas, principalmente as negras minas, repelem violentamente a idéia de ter filhos, empregando vários meios para matar a criança ainda no ventre, evitando assim – conforme declaram – a desgraça de por mais escravos no mundo ...”

(Robert Walsh. Notícias do Brasil (1828-1829). Belo Horizonte-Itatiaia, São Paulo-EDUSP, 1985. vol. 2, p. 162.)

Procura-se“Piracicaba – A 18 do mesmo mês (novembro – 1884), pelas 8 horas da manhã, em o sítio Pau-Queimado, a escrava Tertuliana, pertencente ao fazendeiro José Vieira de Morais, assassinou aos seus três filhos menores, Pedro de 6 anos, Marinho de 26 meses, e Benedito de 8 meses.
Tertuliana foi presa naquela fazenda e remetida para a cadeia do mesmo termo, procedendo o delegado de polícia a auto de corpo de delito e outras diligências.”

(Relatório do chefe de Polícia, anexo ao Relatório apresentado à Assembléia Legislativa Provincial de São Paulo pelo Presidente da Província, João Alfredo Correa de Oliveira no dia /5.02. 1886. São Paulo, Typ. de Jorge Seckler, 1886. p. 13.)

Alvará Régio de 24 de janeiro de 1756
“Dom José, por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, etc. Faço saber aos que esta minha Lei virem, que sendo-me presente, que no Estado do Brasil continuam os mulatos e pretos escravos a usar de facas, e mais armas proibidas por não serem bastantes para coibi-los as penas impostas pelas leis de 29 de março de 1719 e 25 de julho de 1749: Hei por bem que em lugar da pena dos dez anos de galés, impostas nas referidas leis, incorram os ditos pretos e mulatos escravos do dito Estado, que as transgredirem, na pena de cem açoites, dados no pelourinho, e repetidos por dez dias alternados, o que se não entenderá com os negros e mulatos, que forem livres; porque com este se devem observar as Leis já estabelecidas. Pelo que: Mando ao Presidente e Conselheiros do meu Conselho Ultramarino, e ao Vice-Rei e Capitão-General de Mar e Terra do mesmo Estado do Brasil, e a todos os Governadores e Capitães-mores dele, como também aos Governadores das Relações da Bahia e do Rio de Janeiro, Desembargadores delas, e a todos os Ouvidores, Juízes, Oficiais e mais pessoas do dito Estado, cumpram e guardem esta Lei, e a façam cumprir e guardar inteiramente como nela se contém ... REI.”

(Alvará em que se determina o castigo dos escravos que no Estado do Brasil trouxerem facas (24.01.1756). Coleção cronológica de leis extravagantes, posteriores à nova compilação das Ordenações do Reino. Coimbra, Na Real Imprensa da Universidade, 1819, Tomo III de Leis, Alvarás, etc., pp. 476.)

“Conheci um homem na serra dos Órgãos que era um exemplo vivo dos terríveis efeitos causados pela escravidão. Seu nome era Felício e ele fazia gamelas, que vendia pelo interior. Era mulato, filho de um homem branco e de uma escrava. Seria de supor que ele nascesse livre e que o filho de um homem branco não pudesse ser escravo do próprio pai. Puro engano. Ele estava sujeito às mesmas leis que regiam a condição de sua mãe, sendo considerado um escravo pelo pai, que podia vendê-la ou dispor dele como faria com o seu burro. Tendo ele adoecido, porém, e sentindo que ia morrer, fez seu testamento e deu liberdade ao filho, comunicando a ele o que tinha feito. Ao fim de algum tempo o homem se restabeleceu, e ao se desentender com o filho, certa ocasião, ameaçou-o de modificar o seu testamento e determinar que ele fosse vendido junto com o resto de seus bens. Isso o rapaz não estava disposto a permitir, e assim sendo matou o pai no meio do mato e se apossou do seu testamento, exigindo e obtendo a sua liberdade...."

(Robert Walsh. Notícias do Brasil (1828-/829). Belo Horizonte-Itatiaia, São Paulo-EDUSP, 1985. vol. 2, p. 162.)

Alvará de 03 de março de 1741
“Eu, El Rei faço saber aos que este Alvará em forma de Lei virem, que, sendo-me presentes os insultos, que no Brasil cometem os escravos fugidos, a que vulgarmente chamam Calhombolas, passando a fazer o excesso de se juntarem em Quilombos, e sendo preciso acudir com remédios, que evitem esta desordem: Hei por bem, que a todos os negros, que forem achados em Quilombos, estando neles voluntariamente, se lhes ponha com fogo uma marca em uma espádua com a letra F, que para este feito haverá nas Câmaras; e se, quando se for a executar esta pena, já for achado com a mesma marca, se lhe cortará uma orelha, tudo por simples mandado do Juiz de Fora, ou Ordinário da Terra, ou do Ouvidor da Comarca, sem processo algum, e só pela notoriedade do fato, logo que do Quilombo for trazido, antes de entrar para a cadeia (...) Dado em Lisboa Ocidental a 3 de Março de 1741. REI.”

(Alvará em que se determinou que os negros que se achassem em quilombos se marcassem com fogo em uma espádua (03.03.1741). In Coleção Cronológica de leis extravagantes, posteriores à nova compilação das Ordenações do Reino. Coimbra, Na Real Imprensa da Universidade, 1819, Tomo II de Leis, Alvarás, etc., pp. 476-477.)

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','scrollbars=yes,resizable=yes,width=660')">“Há um fato notável na história dos negros do Brasil: a fundação da cidade de Palmares, em meados do século XVII. Cem anos antes, alguns grupos numerosos de negros fugidos se tinham reunido nas proximidades de Porto Calvo, na Província de Pernambuco, criando um aldeamento; mas foram logo dispersos pelos habitantes que ocupavam então Pernambuco. Isso não impediu que em 1650 se erguesse, na mesma região, uma nova aldeia de negros fugidos, com o nome de Palmares. Raptaram todas as mulheres de que puderam se apossar, brancas ou de cor, e seu número logo cresceu de tal maneira que os colonos das províncias vizinhas, para se preservar de suas rapinas julgaram mais prudente tratar com eles, do que recorrer à violência. Assim os negros conseguiram obter armas e outras mercadorias da Europa em troca de produtos da floresta e das suas próprias plantações, e, pouco a pouco, a agricultura e a indústria substituíram o banditismo. Depois da morte de Hombé, seu primeiro chefe, organizaram um reino eletivo. Sua religião era uma mistura de cristianismo e de seu antigo fetichismo. Após 50 anos de existência, a população de Palmares atingira 20 mil habitantes. Fortificações de madeira protegiam a cidade, cuja área era muito vasta, disseminando-se as casas, todas elas cercadas de plantações de seus proprietários. Esse desenvolvimento provocou a inquietação do governo português. Em 1696, os governadores-gerais da Bahia e Pernambuco, João de Lencastro e Caetano Melo reuniram-se para uma expedição em conjunto contra Palmares. Um exército de mil homens atacou a cidade, mas como carecesse de artilharia viu-se repelido. Só foi possível bater os negros com a chegada de reforços e de artilharia pesada. A cidade foi tomada e destruída; escravizaram-se mulheres, as crianças e todos os que conseguiram escapar à carnificina do campo de batalha. O chefe dos negros e seus companheiros preferiram a morte: precipitaram-se todos ao alto de um rochedo a cujos pés se situava a cidade.”

(Johann-Moritz Rugendas. Viagens pitoresca através do Brasil. São Paulo, Martins-EDUSP, 1972. p. 160.)

"Há alguns anos que, dos negros de Angola fugidos ao rigor do cativeiro e fábricas dos engenhos desta capitania, se formaram povoações numerosas pela terra dentro entre os Palmares e matos, cujas asperezas e faltas de caminhos os têm mais fortificados por natureza do que pudera ser por arte e, crescendo cada dia em número, se adiantam tanto no atrevimento que com contínuos roubos e assaltos fazem despejar muita parte dos moradores desta capitania mais vizinhos aos seus mocambos, cujo exemplo e conservação vai convidando cada dia aos mais que fogem, por se livrar [do] rigoroso cativeiro que padecem, e se verem com a liberdade lograda no fértil das terras e segurança de suas habitações, podendo-se temer que com estas conveniências cresçam em poder de maneira que, sendo tanto maior o número, pretendam atrever-se a tão poucos como são os moradores desta capitania a respeito dos seus cativos; para evitar este dano, determina passar a Porto Calvo na entrada deste verão, lugar mais proporcionado para se fazer esta guerra e dali [...] mandar abrir caminhos para os ditos Palmares, por onde possam ser investidos e arrasadas as suas povoações, continuamente, até de todo se extinguirem e ficar livre esta capitania deste dano que tanto a ameaça; e posta que não são poucas as dificuldades que para este fim se me oferecem, pelas asperezas das terras, falta de caminhos e de carruagem, e para os mantimentos que em todo este Estado se não podem conduzir senão às costas de negros por falta de estradas para carros, nem para mais que um homem atrás do outro. Contudo, espero que a boa diligência seja poderosa para vencer todos estes inconvenientes [...] mas porque se não poderá obrar coisa alguma sem grande despesa da fazenda de Vossa Alteza, é necessário que Vossa Alteza seja servido havê-la assim [...] e mandar-me ordem para isso, sem embargo de que procurarei que os poucos contribuam com tudo o que lhe for possível, como fiz para o socorro de Angola e, creia Vossa Alteza, não está menos perigoso este Estado com o atrevimento destes negros, do que esteve com os holandeses, porque os moradores nas suas mesmas casas e engenhos têm os inimigos, que os podem conquistar se se resolverem; a seguir têm pernicioso exemplo, admoestados dos mesmos rebeldes que os comunicam, tendo já tendas de ferreiros e outras oficinas com que poderão fazer armas, pois usam de algumas de fogo que de cá levam; e este sertão é tão fértil de metais e salitre, que tudo lhes oferece para sua defesa, se lhes não faltar a indústria que também se pode temer dos muitos que fogem – já práticos em todas as mecânicas. E porque de semelhantes perigos desprezados se vêm ordinariamente a ocasionar danos irreparáveis, me pareceu opor-me aos que daqui podem resultar.
Quererá Deus ajudar-me para que consiga deixar esta capitania livre desta perturbação, que será para mim o maior prêmio de todos os serviços que a Vossa Alteza desejo fazer [...]"

(Fernão de Souza Coutinho, governador de Pernambuco. Carta ao rei: 1º. de junho de 1671).

Capitão-do-mato“Como se deve pensar, a fuga dos escravos é que fornece maior número de oportunidades para cenas semelhantes. Em geral eles só se evadem da casa dos proprietários que os maltratam, mas os tratamentos mais suaves não impedem completamente as evasões, porque o amor à liberdade é muito forte no negro e basta-lhe um pretexto insignificante para fazê-lo tomar uma resolução precipitada; mas o arrependimento fá-lo voltar, muitas vezes, para casa de um amigo do dono e do qual este consegue uma carta implorando perdão ‘para quem volta voluntariamente’. Quando os escravos possuem o suficiente para o seu resgate e que este lhes é recusado aproveitam a primeira oportunidade para evadir-se e é então muito difícil apreendê-los.
(...) Poder-se-ia pensar que num país como o Brasil deve ser quase impossível pegar um negro fugido; é raro, no entanto, que este não seja rapidamente preso. Deve-se esta facilidade à instituição dos capitães-do-mato. São negros livres que gozam de um ordenado fixo e são encarregados de percorrer os distritos de vez em quando, com o fito de prender os negros evadidos e conduzi-los a seus senhores ou, não os conhecendo, à prisão mais próxima. A captura é em seguida anunciada por um cartaz afixado à porta da igreja, e o proprietário, desse modo, logo se encontra. Muitas vezes, esses capitães-do-mato empregam, nas suas buscas grandes cães ensinados. Os negros temem, aliás, o encontro de índios e a fome, por isso raramente se decidem a penetrar profundamente no interior do país ou das florestas. Mantêm-se, quase sempre, nas vizinhanças dos lugares habitados e não tarda se perceba que são fugitivos; ou por conhecê-los ou justamente pelo contrário, por não serem conhecidos ...
Algumas vezes vários negros se evadem juntos e chegam a conseguir armas de fogo; torna-se-lhes então possível encontrar um asilo no interior das florestas alimentando-se de caça e defendendo-se dos índios. Muito freqüentemente esses negros, chamados negros do mato ou quilombolas, constituem grupos mais numerosos, praticando o banditismo nas estradas e atacando os viajantes isolados, as fazendas e as tropas que fazem o comércio do interior com o litoral ...”

(Johann Moritz Rugendas. Viagem pitoresca através do Brasil. São Paulo, Martins-EDUSP, 1972. pp. 159-160.)

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