“O
lugar onde fica situado o grande mercado
de escravos é uma rua comprida
e sinuosa, chamada Valongo, que vai da
beira-mar até a extremidade nordeste
da cidade. Quase todas as casas dessa
rua são depósitos de escravos
que ali ficam à espera de seus
compradores. Esses depósitos ocupam
os dois lados da rua, e ali as pobres
criaturas são expostas à
venda como qualquer outra mercadoria.
Quando chega um comprador, eles são
trazidos à sua presença,
sendo por este examinados e apalpados
em qualquer parte do corpo, exatamente
como já vi açougueiros fazerem
com os bois. O exame todo se restringe
apenas à avaliação
da capacidade física do escravo,
sem a menor preocupação
quanto às suas qualidades morais,
que interessam tanto ao comprador quanto
se ele estivesse adquirindo um cão
ou um burro. Freqüentemente tive
a oportunidade de ver senhoras brasileiras
nesses mercados. Elas chegam, sentam-se,
examinam e apalpam suas aquisições
e as levam consigo, com a mais profunda
indiferença. Muitas vezes vi aqui
grupos de senhoras bem vestidas comprando
escravos com a mesma animação
com que senhoras inglesas fazem compras
nos bazares.
(...)
Os depósitos consistem de espaços
cômodos onde, às vezes, ficam
em exposição 300 a 400 escravos
de ambos os sexos e de todas as idades.
À volta do aposento há vários
bancos, ocupados geralmente pelos velhos;
no centro ficam os mais jovens, principalmente
as mulheres, que ficam acocoradas no chão
formando um grupo compacto, com as mãos
e o queixo apoiados nos joelhos. Seu corpo
é coberto apenas por uma faixa
de tecido de algodão quadriculado,
atado à volta da cintura.
Quando
passei por essa rua pela primeira vez,
parei para olhar através das grades
de uma janela; apareceu então um
cigano e insistiu para que eu entrasse.
Senti-me atraído por um grupo de
crianças, uma das quais, uma menina,
tinha um ar triste e cativante. Ao me
ver olhando para ela, o cigano a fez levantar-se
dando-lhe uma lambada com uma comprida
vara, e lhe ordenou com voz áspera
que se aproximasse. Era desolador ver
a pobre criança de pé à
minha frente, toda encolhida, em tal estado
de solidão e desamparo que era
difícil conceber como pode chegar
àquela situação um
ser que, assim como eu, é dotado
de uma mente racional e uma alma imortal.
Algumas meninas tinham um ar muito doce
e cativante. Apesar de sua pele escura,
havia tanto recato, delicadeza e cordura
nos seus modos que era impossível
deixar de reconhecer que eram dotadas
dos mesmos sentimentos e da mesma natureza
das nossas filhas. O vendedor preparava-se
para colocar a menina em várias
posições e exibi-la da mesma
maneira como faria com um homem, mas eu
declinei da exibição e ela
retornou timidamente ao seu lugar, parecendo
contente por poder se esconder no meio
do grupo.
(...)
Os homens eram geralmente figuras menos
interessantes do que as mulheres. Suas
fisionomias e a tonalidade de sua pele
variavam de acordo com a parte da costa
africana. Alguns eram negros como fuligem,
e uma certa ferocidade no seu aspecto
indicava a presença de sentimentos
fortes e passionais como se remoessem
sobriamente em seu íntimo as ofensas
muito graves que lhes haviam sido feitas
e planejassem vingança. Quando
um deles era chamado, ele se aproximava
com sombria indiferença, levantava
os braços, batia os pés,
gritava para mostrar o vigor de seus pulmões,
corria para lá e para cá
no aposento – em suma, era tratado exatamente
como se fosse um cavalo sendo exibido
numa exposição e que depois
é mandado de volta à baia
com uma chicotada. A cabeça dos
escravos, tanto masculinos quanto femininos,
era raspada, sendo deixado apenas um tufo
de cabelos na frente. Algumas das mulheres
usavam lenços de algodão
amarrados na cabeça, enfeitados
com conchas e sementes nativas, o que
lhes dava uma aparência muito graciosa.
Um certo número deles, principalmente
os homens sofriam de uma erupção
na pele, que ficava com manchas esbranquiçadas
e tinha um aspecto asqueroso, lembrando
lepra. Entretanto, a erupção
era considerada um saudável esforço
do organismo para se livrar do sal dos
mantimentos consumidos durante a viagem;
e, de fato, seu aspecto lembrava exatamente
uma concreção salina. Muitos
deles se achavam estirados sobre as tábuas
nuas do assoalho; viam-se também
muitas mães com os filhos ao peito,
mostrando-se elas profundamente apegadas
a eles. Todos estavam condenados a permanecer
ali, como ovelhas no redil, até
serem vendidos. Não dispunham de
um quarto para o qual se recolhessem,
nem de cama onde repousassem, nem de uma
coberta que os agasalhasse. Permaneciam
sentados ali, nus, o dia inteiro, e à
noite se estiravam nus sobre as tábuas
do assoalho ou sobre os bancos.”
(Robert Walsh. Notícias
do Brasil (1828-18299). Belo Horizonte-Itatiaia,
São Paulo-EDUSP, 1985. vol. 2,
p. 152.)