CLIO História - Biblioteca: Banco de Imagens - Escravos
         
CLIO História
Prof. Almir Ribeiro
Banco de Imagens
ESCRAVOS: AS MÃOS E OS PÉS...
::: Introdução
::: O tráfico
::: O mercado
::: O trabalho
::: O cotidiano
::: A violência
::: A resistência
::: Abolição
::: Todas as imagens
 
Bibliografia
::: Ver citações ao final de cada documento.
 
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Valongo“O lugar onde fica situado o grande mercado de escravos é uma rua comprida e sinuosa, chamada Valongo, que vai da beira-mar até a extremidade nordeste da cidade. Quase todas as casas dessa rua são depósitos de escravos que ali ficam à espera de seus compradores. Esses depósitos ocupam os dois lados da rua, e ali as pobres criaturas são expostas à venda como qualquer outra mercadoria. Quando chega um comprador, eles são trazidos à sua presença, sendo por este examinados e apalpados em qualquer parte do corpo, exatamente como já vi açougueiros fazerem com os bois. O exame todo se restringe apenas à avaliação da capacidade física do escravo, sem a menor preocupação quanto às suas qualidades morais, que interessam tanto ao comprador quanto se ele estivesse adquirindo um cão ou um burro. Freqüentemente tive a oportunidade de ver senhoras brasileiras nesses mercados. Elas chegam, sentam-se, examinam e apalpam suas aquisições e as levam consigo, com a mais profunda indiferença. Muitas vezes vi aqui grupos de senhoras bem vestidas comprando escravos com a mesma animação com que senhoras inglesas fazem compras nos bazares.

Contrato(...) Os depósitos consistem de espaços cômodos onde, às vezes, ficam em exposição 300 a 400 escravos de ambos os sexos e de todas as idades. À volta do aposento há vários bancos, ocupados geralmente pelos velhos; no centro ficam os mais jovens, principalmente as mulheres, que ficam acocoradas no chão formando um grupo compacto, com as mãos e o queixo apoiados nos joelhos. Seu corpo é coberto apenas por uma faixa de tecido de algodão quadriculado, atado à volta da cintura.

TabelaQuando passei por essa rua pela primeira vez, parei para olhar através das grades de uma janela; apareceu então um cigano e insistiu para que eu entrasse. Senti-me atraído por um grupo de crianças, uma das quais, uma menina, tinha um ar triste e cativante. Ao me ver olhando para ela, o cigano a fez levantar-se dando-lhe uma lambada com uma comprida vara, e lhe ordenou com voz áspera que se aproximasse. Era desolador ver a pobre criança de pé à minha frente, toda encolhida, em tal estado de solidão e desamparo que era difícil conceber como pode chegar àquela situação um ser que, assim como eu, é dotado de uma mente racional e uma alma imortal. Algumas meninas tinham um ar muito doce e cativante. Apesar de sua pele escura, havia tanto recato, delicadeza e cordura nos seus modos que era impossível deixar de reconhecer que eram dotadas dos mesmos sentimentos e da mesma natureza das nossas filhas. O vendedor preparava-se para colocar a menina em várias posições e exibi-la da mesma maneira como faria com um homem, mas eu declinei da exibição e ela retornou timidamente ao seu lugar, parecendo contente por poder se esconder no meio do grupo.

Escravas(...) Os homens eram geralmente figuras menos interessantes do que as mulheres. Suas fisionomias e a tonalidade de sua pele variavam de acordo com a parte da costa africana. Alguns eram negros como fuligem, e uma certa ferocidade no seu aspecto indicava a presença de sentimentos fortes e passionais como se remoessem sobriamente em seu íntimo as ofensas muito graves que lhes haviam sido feitas e planejassem vingança. Quando um deles era chamado, ele se aproximava com sombria indiferença, levantava os braços, batia os pés, gritava para mostrar o vigor de seus pulmões, corria para lá e para cá no aposento – em suma, era tratado exatamente como se fosse um cavalo sendo exibido numa exposição e que depois é mandado de volta à baia com uma chicotada. A cabeça dos escravos, tanto masculinos quanto femininos, era raspada, sendo deixado apenas um tufo de cabelos na frente. Algumas das mulheres usavam lenços de algodão amarrados na cabeça, enfeitados com conchas e sementes nativas, o que lhes dava uma aparência muito graciosa. Um certo número deles, principalmente os homens sofriam de uma erupção na pele, que ficava com manchas esbranquiçadas e tinha um aspecto asqueroso, lembrando lepra. Entretanto, a erupção era considerada um saudável esforço do organismo para se livrar do sal dos mantimentos consumidos durante a viagem; e, de fato, seu aspecto lembrava exatamente uma concreção salina. Muitos deles se achavam estirados sobre as tábuas nuas do assoalho; viam-se também muitas mães com os filhos ao peito, mostrando-se elas profundamente apegadas a eles. Todos estavam condenados a permanecer ali, como ovelhas no redil, até serem vendidos. Não dispunham de um quarto para o qual se recolhessem, nem de cama onde repousassem, nem de uma coberta que os agasalhasse. Permaneciam sentados ali, nus, o dia inteiro, e à noite se estiravam nus sobre as tábuas do assoalho ou sobre os bancos.”

(Robert Walsh. Notícias do Brasil (1828-18299). Belo Horizonte-Itatiaia, São Paulo-EDUSP, 1985. vol. 2, p. 152.)

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