
“E se o castigo for freqüente
e excessivo, ou se irão embora,
fugindo para o mato, ou se matarão
por si, como costumam, tomando a respiração
ou enforcando-se, ou procurarão
tirar a vida aos que lha dão tão
má, recorrendo se for necessário
a artes diabólicas, ou clamarão
de tal sorte a Deus, que os ouvirá
e fará aos senhores o que já
fez aos egípcios, quando avexavam
com extraordinário trabalho ao
hebreus, mandando as pragas terríveis
contra suas fazendas e filhos.”
(Antonil, Cultura e Opulência no
Brasil, 1710)
A·S ·
M·Ã·O·S ·
E · O·S · P·É·S
...
A
sociedade brasileira, durante mais de
350 anos, é eminentemente escravista
e todas as relações socioculturais
são permeadas por essa característica.
Do escravo, a sociedade branca esperava
fidelidade, obediência e humildade:
"Essas três qualidades especiais
conformam a personalidade do bom escravo".
(Kátia Matoso, 1982). A aparente
aceitação dessas normas
não signficava que não houvesse
resistências ou conflitos internos.
No entanto, mesmo em meio ao horror que
vivenciavam, eles precisavam tentar sobreviver.
Os que não se adaptavam a essas
exigências e não conseguiam
se estruturar internamente na condição
escrava provavelmente morriam.
Pode-se
imaginar o tamanho do desespero, da depressão
e da insegurança que acometiam
muitos escravos. Os que sobreviviam precisavam
se adaptar às duras condições
de trabalho, às longas jornadas,
à alimentação precária,
aos maus tratos e castigos. Essas eram
as condições objetivas em
que viviam. As regras básicas de
sobrevivência implicavam trabalhar
e obedecer. Não necessariamente
sem resistência. (Guillen/Couceiro,
adaptado)
Apresentamos
nas páginas seguintes, documentos,
gravuras e fotos que contam um pouco desta
história. História ainda
pouco conhecida da grande maioria e tratada
marginalmente em nossos currículos
escolares.
As
duas imagens que acompanham esta introdução,
e seus respectivos textos, são
brilhantes e sintetizam esta história
de dor e miséria que forjou o Brasil.