CLIO História - Biblioteca: Banco de Imagens - Escravos
         
CLIO História
Prof. Almir Ribeiro
Banco de Imagens
ESCRAVOS: AS MÃOS E OS PÉS...
::: Introdução
::: O tráfico
::: O mercado
::: O trabalho
::: O cotidiano
::: A violência
::: A resistência
::: Abolição
::: Todas as imagens
 
Bibliografia
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Casamento
Enterro
Enterro de criança
Escravos urbanos
Escravos urbanos
Escravos urbanos
Negro e negra...
Fazenda...
 

Senzala“No pátio em que se encontra a casa-grande existem em geral dois edifícios compridos, de construção primitiva, as chamadas senzalas ou habitações dos negros, onde os homens são alojados separadamente das mulheres. Ao longo dessas construções estão as tarimbas, cerca de 3 pés acima do chão, e no centro um corredor bastante largo e alguns fogões primitivos, nos quais os negros preparam às vezes um ou outro prato simples ao voltar do trabalho. Tais pratos suplementares que os escravos preparam nos fogões são peixe ou alguma caça do mato, especialmente tatus, iguanas, pacas, capivaras, cotias ou outros petiscos de sua predileção. Os negros gostam de reunir-se ao cair da noite ao redor do fogo, fumando, palestrando e gesticulando, em grande algazarra. As tarimbas, das quais cada uma mede 2,5 a 3 pés de largura são separadas uma da outra por uma divisão de madeira de 3 pés de altura, tendo na frente uma esteira ou cobertor para tapar a entrada do lado do corredor. Cada negro possui de 3 a 4 cobertores que usa também como colchão, se não prefere utilizar-se da esteira. Um pequeno travesseiro completa a cama primitiva.

Fazenda fluminense A tarimba é bastante comprida para permitir colocar em sua extremidade um baú no qual o respectivo dono guarda os seus pertences. As senzalas possuem janelas com grades, ou então, em vez de janelas, uma abertura abaixo do teta, a 12 pés acima do solo, que permite a ventilação e a iluminação suficiente para todo o recinto. Atrás das senzalas ficam as privadas, que são, às vezes, substituídas por barricas cheias de água até a metade, e que, colocadas no corredor, são diariamente esvaziadas e devidamente limpas.

As senzalas ficam abertas as 10 horas da noite, havendo até lá, um convívio misto nas mesmas. A um sinal dado por uma campainha, os homens e as mulheres se retiram, cada qual para sua habitação, e o guarda as fecha a chave, abrindo-as na manhã seguinte, uma hora antes de iniciar-se a tarefa diária. As crianças menores dormem com as mães, as maiores possuem suas tarimbas individuais, dormindo em geral duas crianças em cada uma. Os negros casados vivem em recintos menores, devidamente separados.

Negros novos(...) Os trajes dos escravos são muito simples – os homens usam calça e camisa, as mulheres camisa e saia, tudo feito de algodão grosso e resistente, de fabricação nacional. Uma ‘baieta’ de lã com forro de algodão, um chapéu de palha ou um barrete completam a indumentária. Nas fazendas que primam pelo tratamento dispensado aos negros, eles recebem três camisas, três pares de calças e os respectivos casacos, um chapéu, um pano que geralmente é enrolado na cabeça, e dois cobertores por ano. Tal fornecimento representa um gasto de 16 a 22 mil réis por cabeça. (...) As mucamas recebem roupas mais finas. O dinheiro que os escravos conseguem com pequenos serviços avulsos é geralmente gasto na aquisição de bugigangas, uma ou outra peça de roupa, fumo, doces, e se a ocasião se oferece, na compra clandestina de cachaça.”

(Johann Jakob von Tschudi. Viagem às províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. Belo Horizonte-Itatiaia; São Paulo-EDUSP, 1980. p. 56.)

Caminho da roça(...)
"No fim da década de 1940, a partir de pesquisa arquivística e de relatos de ex-escravos e de seus descendentes, o historiador norte-americano Stanley Stein reconstituiu a rotina diária de trabalho nas grandes fazendas em Vassouras. Uma outra história da vida cotidiana.

Muito antes que os primeiros raios de sol alcançassem aquele "mar de colinas", que caracterizava tal região, os cativos eram despertados pelos feitores e capatazes. Nas grandes propriedades, o início do dia de trabalho podia ser anunciado por um sino que soava estridente por todo o terreiro. Algumas escravas cozinheiras acordavam mais cedo, visando a preparar a alimentação matinal dos demais, que invariavelmente consistia num café fraco e rapadura, talvez pedaços ressecados de angu.

Em Vassouras, a maior parte deve ter habitado senzalas coletivas, talvez divididas entre homens e mulheres solteiros, sendo que os casados, muitas vezes, residiam em pequenas senzalas separadas. Despertados pelo irritante badalar, os cativos dirigiam-se a um grande tanque d'água, onde se lavavam. Tudo muito rápido. Ainda sonolentos, iam se agrupando no terreiro da fazenda. Aguardavam a presença do administrador ou quase raramente do próprio dono da fazenda, os quais dariam as instruções para mais um dia na lavoura. Só depois de distribuídos em turmas, respeitando-se ocupações e as necessidades diárias do serviço, recebiam a primeira refeição.

Na roça Dirigiam-se então ao paiol da fazenda, onde pegavam ferramentas: enxadas, foices, facões, peneiras e cestos. Uma parte da escravaria permanecia na fazenda. Afora os considerados incapacitados e doentes, era constituída de cativos domésticos e alguns com ocupações específicas. Ali ficavam mucamas, lavadeiras, costureiras, cozinheiras e demais empregadas no serviço da casa-grande e os de ofícios especializados, como ferreiros, carpinteiros, pedreiros, tropeiros etc., que realizavam tarefas diversas no âmbito das fazendas. Nas grandes fazendas de café, como não poderia deixar de ser, a maior parte dos escravos se ocupava do serviço de roça. Esse era o trabalho do nosso José, embora tivesse, depois da sua chegada, aprendido alguma coisa de carpintaria.

Os escravos da roça seguiam para plantações distantes numa grande caravana. O sol ainda não estava firme, mas sim olhares vigilantes dos feitores e capatazes, muitos dos quais também podiam ser cativos. Conduziam uma pequena carroça puxada por uma junta de bois, levando caldeirões e mantimentos para prepararem a refeição no campo.
As crianças, mesmo bem pequenas, muitas vezes acompanhavam seus pais. Era comum as mulheres carregarem seus filhos para as plantações, podendo também os recém-nascidos ficar na sede da fazenda sob os cuidados de alguns velhos, aleijados ou avaliados como incapazes para o trabalho no eito. Era, por exemplo, a rotina das africanas Florinda, Diolinda, Narciza, Luiza, Emerenciana e outras tantas, que levavam seus filhos menores diariamente para a roça. A mortalidade infantil era altíssima e José conheceu dezenas de crianças que não passaram dos primeiros meses.

CaféNa lavoura todos eram redistribuídos em grupos, sendo destacados para partes diversas dos cafezais. Passava pouca coisa das seis horas da manhã. Separados num sistema de trabalho por "gangs" ou turmas, denominado "corte" e "beirada", os cativos considerados mais aptos, sempre os jovens e mais robustos, eram escolhidos para ditar o ritmo da colheita. Quatro trabalhadores colocados na beirada dos cafezais, sendo o cortador e o contra-cortador de um lado e o beirador e o contra-beirador do outro. Os mais velhos e lentos colocados no meio. Homens e mulheres na mesma turma. Colhiam em média cinco a sete alqueires diariamente. Não demorou muito José percebeu que os ritmos do trabalho não tinham somente os sons do chicote e da gritaria imposta pelos feitores. Aprendeu e logo se animava com os vissungos, cantigas africanas. Sob formas de versos cifrados, repetidos refrões e com significados simbólicos, também serviam como senhas, por meio das quais resenhavam suas vidas e expectativas e mesmo avisavam uns aos outros sobre a aproximação de um feitor. O "ngoma" -como diziam- podia estar perto. A despeito da violência e péssimas condições, tentar definir alguns sons e ritmos do trabalho era uma face fundamental da organização de suas próprias vidas escravas.

Cozinhando Alguns eram destacados para prepararem as refeições coletivas no campo. Dez horas da manh&a
tilde; ou um pouco mais tarde: uma pausa. O almoço. Formavam fila em frente a um rancho improvisado que servia de cozinha. Recebiam em pequenas cuias refeições, constituídas de angu -a base da alimentação escrava- e um pouco de feijão temperado com pedaços de toucinho e gordura de porco. Não raro alguns legumes, como batata-doce e abóbora, e farinha de mandioca. Muitas escravas aproveitavam para amamentar seus filhos. O total da pausa não durava uma hora. Logo retornavam ao trabalho e só bem mais tarde havia outro breve intervalo.

Na ocasião, sem se afastarem dos locais da colheita, recebiam um pouco de café, substituído nos dias frios e chuvosos por pequenas doses de aguardente. O trabalho continuava até às 16h, quando era servido o jantar, via de regra a sobra do angu do almoço. Essas cenas cotidianas foram desenhadas por Victor Frond e posteriormente acompanharam como litografias a publicação dos relatos de viagens de Charles Ribeyrolles.

DescansoEra também nesse longo dia de penoso e extenuante trabalho que os cativos, castigados pelo sol escaldante, pelos espinhos dos arbustos de café ou pelo chicote dos feitores truculentos, procuravam formas diversas de socialização. O castigo era uma realidade que rondava. Mas aproveitando uma fugidia frouxidão na vigilância, conversavam a respeito de seu cotidiano, alimentando sonhos de melhores dias. Ao escurecer, quase às 19h nos dias de verão, preparavam-se para voltar à fazenda. Novamente formavam fila em frente ao terreiro e reuniam-se aos que tinham permanecido trabalhando na sede da fazenda. Retornariam às senzalas. A jornada de trabalho podia continuar madrugada adentro na separação e ensacamento dos grãos de café colhidos. À noite, em torno das pequenas fogueiras que mantinham - nunca apagavam as brasas! - no interior das senzalas, o cansaço dominava absoluto. Uma esperança renovada semanalmente surgia nas vésperas dos domingos. Poderiam cultivar suas roças próprias, produzindo alimentos para seu consumo. Eram concessões senhoriais que souberam transformar em conquistas e direitos costumeiros, podendo obter recursos extras com a comercialização dos excedentes. Nos dias santos promoviam seus jongos e caxambus. Alimentavam tanto seus espíritos como os daqueles não mais presentes.

Talvez na mente destes trabalhadores escravizados tais jornadas tenham sido longos dias-noites que nunca terminavam.... como a história do trabalho. Sem fim."

(Flávio Gomes é historiador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Publicado no jornal Folha de São Paulo)

Jantar“Grande parte da população escrava do Rio de Janeiro acha-se empregada em serviços domésticos, com pessoas ricas ou de posição. É um artigo de luxo, inerente antes à vaidade do senhor do que às necessidades da casa. Esses escravos usam librés fora de moda que, acrescidas aos turbantes e penteados esdrúxulos, fazem deles verdadeiras caricaturas. Têm pouco trabalho, às vezes nenhum; sua alimentação é boa; são, em resumo seres tão inúteis quanto os criados dos grandes senhores da Europa (...) Os escravos das grandes cidades, em sua maioria, são obrigados a pagar semanalmente, às vezes diariamente, determinada importância a seus senhores, importância que procuram ganhar pela prática de qualquer profissão: são marceneiros, seleiros, alfaiates, marinheiros, carregadores etc. Assim, conseguem eles ganhar facilmente mais do que lhes exige o senhor e, com um pouco de economia, em nove ou dez anos, adquirem, sem dificuldade sua liberdade. Se isso não acontece, tão amiudamente quanto seria de imaginar, é porque os negros têm predisposição para a prodigalidade, principalmente em matéria de roupas, de tecidos de cores vivas e de fitas.
GanhoDissipam, com isso, quase tudo o que ganham. Gozam em geral de muita liberdade e sua existência é bastante suportável, pois têm o dia inteiro disponível para tratar de seus negócios, bastando-lhes recolherem-se à noite; seus senhores só se preocupam com eles na medida em que se faz necessário para assegurar a cobrança e hebdomadária. De manhã, antes de sua partida, e de noite, ao voltarem dão-lhes farinha de mandioca e feijão; quanto à alimentação do dia, cabe-lhes consegui-la. Também se vêem mulheres escravas ganhar a vida do mesmo modo; fazem-se amas, lavadeiras, floristas, ou quitandeiras.

(...) Dir-se-ia que após os trabalhos do dia, os mais barulhentos prazeres produzem sobre o negro o mesmo efeito que o repouso. À noite, é raro encontrarem-se escravos reunidos que não estejam animados por cantos e danças; dificilmente se acredita que tenham executado, durante o dia, os mais duros trabalhos, e não conseguimos nos persuadir de que são escravos que temos diante dos olhos.

BatuqueA dança habitual do negro é o batuque. Apenas se reúnem alguns negros e logo se ouve a batida cadenciada das mãos; é o sinal de chamada e de provocação à dança. O batuque é dirigido por um figurante; consiste em certos movimentos do corpo que talvez pareçam demasiado expressivos; são principalmente as ancas que se agitam, enquanto o dançarino faz estalar a língua e os dedos, acompanhando um canto monótono, os outros fazem círculo em volta dele e repetem o refrão.

Outra dança negra muito conhecida é o ‘lundu’ também dançada pelos portugueses, ao som do violino, por um ou mais pares. Talvez o ‘fandango’, ou o ‘bolero’, dos espanhóis, não passem de uma imitação aperfeiçoada dessa dança.

Acontece muitas vezes que os negros dançam sem parar noites inteiras, escolhendo, por isso, de preferência, os sábados e as vésperas dos dias santos.

LunduÉ preciso mencionar, também, uma espécie de dança militar: dois grupos armados de paus colocam-se um em frente do outro e o talento consiste em evitar os golpes da ponta do adversário. Os negros têm ainda um outro folguedo guerreiro, muito mais violento, a ‘capoeira’: dois campeões se precipitam um contra o outro, procurando dar com a cabeça no peito do adversário que desejam derrubar. Evita-se o ataque com saltos de lado e paradas igualmente hábeis; mas, lançando-se um contra o outro mais ou menos como bodes, acontece-lhes chocarem-se fortemente cabeça contra cabeça o que faz com que a brincadeira não raro degenere em briga e que as facas entrem em jogo ensanguentando-a.”

(Johann-Moritz Rugendas. Viagem pitoresca através do Brasil. São Paulo, Martins-EDUSP, 1972. pp. 147-157.)

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