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“No
pátio em que se encontra a casa-grande
existem em geral dois edifícios
compridos, de construção
primitiva, as chamadas senzalas ou habitações
dos negros, onde os homens são
alojados separadamente das mulheres. Ao
longo dessas construções
estão as tarimbas, cerca de 3 pés
acima do chão, e no centro um corredor
bastante largo e alguns fogões
primitivos, nos quais os negros preparam
às vezes um ou outro prato simples
ao voltar do trabalho. Tais pratos suplementares
que os escravos preparam nos fogões
são peixe ou alguma caça
do mato, especialmente tatus, iguanas,
pacas, capivaras, cotias ou outros petiscos
de sua predileção. Os negros
gostam de reunir-se ao cair da noite ao
redor do fogo, fumando, palestrando e
gesticulando, em grande algazarra. As
tarimbas, das quais cada uma mede 2,5
a 3 pés de largura são separadas
uma da outra por uma divisão de
madeira de 3 pés de altura, tendo
na frente uma esteira ou cobertor para
tapar a entrada do lado do corredor. Cada
negro possui de 3 a 4 cobertores que usa
também como colchão, se
não prefere utilizar-se da esteira.
Um pequeno travesseiro completa a cama
primitiva.
A tarimba é bastante comprida para
permitir colocar em sua extremidade um
baú no qual o respectivo dono guarda
os seus pertences. As senzalas possuem
janelas com grades, ou então, em
vez de janelas, uma abertura abaixo do
teta, a 12 pés acima do solo, que
permite a ventilação e a
iluminação suficiente para
todo o recinto. Atrás das senzalas
ficam as privadas, que são, às
vezes, substituídas por barricas
cheias de água até a metade,
e que, colocadas no corredor, são
diariamente esvaziadas e devidamente limpas.
As senzalas ficam abertas as 10 horas
da noite, havendo até lá,
um convívio misto nas mesmas. A
um sinal dado por uma campainha, os homens
e as mulheres se retiram, cada qual para
sua habitação, e o guarda
as fecha a chave, abrindo-as na manhã
seguinte, uma hora antes de iniciar-se
a tarefa diária. As crianças
menores dormem com as mães, as
maiores possuem suas tarimbas individuais,
dormindo em geral duas crianças
em cada uma. Os negros casados vivem em
recintos menores, devidamente separados.
(...)
Os trajes dos escravos são muito
simples – os homens usam calça
e camisa, as mulheres camisa e saia, tudo
feito de algodão grosso e resistente,
de fabricação nacional.
Uma ‘baieta’ de lã com forro de
algodão, um chapéu de palha
ou um barrete completam a indumentária.
Nas fazendas que primam pelo tratamento
dispensado aos negros, eles recebem três
camisas, três pares de calças
e os respectivos casacos, um chapéu,
um pano que geralmente é enrolado
na cabeça, e dois cobertores por
ano. Tal fornecimento representa um gasto
de 16 a 22 mil réis por cabeça.
(...) As mucamas recebem roupas mais finas.
O dinheiro que os escravos conseguem com
pequenos serviços avulsos é
geralmente gasto na aquisição
de bugigangas, uma ou outra peça
de roupa, fumo, doces, e se a ocasião
se oferece, na compra clandestina de cachaça.”
(Johann Jakob von Tschudi.
Viagem às províncias do
Rio de Janeiro e São Paulo. Belo
Horizonte-Itatiaia; São Paulo-EDUSP,
1980. p. 56.)
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(...)
"No fim da década de 1940, a partir
de pesquisa arquivística e de relatos
de ex-escravos e de seus descendentes, o historiador
norte-americano Stanley Stein reconstituiu
a rotina diária de trabalho nas grandes
fazendas em Vassouras. Uma outra história
da vida cotidiana.
Muito antes que os primeiros raios de sol
alcançassem aquele "mar de colinas",
que caracterizava tal região, os cativos
eram despertados pelos feitores e capatazes.
Nas grandes propriedades, o início
do dia de trabalho podia ser anunciado por
um sino que soava estridente por todo o terreiro.
Algumas escravas cozinheiras acordavam mais
cedo, visando a preparar a alimentação
matinal dos demais, que invariavelmente consistia
num café fraco e rapadura, talvez pedaços
ressecados de angu.
Em Vassouras, a maior parte deve ter habitado
senzalas coletivas, talvez divididas entre
homens e mulheres solteiros, sendo que os
casados, muitas vezes, residiam em pequenas
senzalas separadas. Despertados pelo irritante
badalar, os cativos dirigiam-se a um grande
tanque d'água, onde se lavavam. Tudo
muito rápido. Ainda sonolentos, iam
se agrupando no terreiro da fazenda. Aguardavam
a presença do administrador ou quase
raramente do próprio dono da fazenda,
os quais dariam as instruções
para mais um dia na lavoura. Só depois
de distribuídos em turmas, respeitando-se
ocupações e as necessidades
diárias do serviço, recebiam
a primeira refeição.
Dirigiam-se então ao paiol da fazenda,
onde pegavam ferramentas: enxadas, foices,
facões, peneiras e cestos. Uma parte
da escravaria permanecia na fazenda. Afora
os considerados incapacitados e doentes, era
constituída de cativos domésticos
e alguns com ocupações específicas.
Ali ficavam mucamas, lavadeiras, costureiras,
cozinheiras e demais empregadas no serviço
da casa-grande e os de ofícios especializados,
como ferreiros, carpinteiros, pedreiros, tropeiros
etc., que realizavam tarefas diversas no âmbito
das fazendas. Nas grandes fazendas de café,
como não poderia deixar de ser, a maior
parte dos escravos se ocupava do serviço
de roça. Esse era o trabalho do nosso
José, embora tivesse, depois da sua
chegada, aprendido alguma coisa de carpintaria.
Os escravos da roça seguiam para plantações
distantes numa grande caravana. O sol ainda
não estava firme, mas sim olhares vigilantes
dos feitores e capatazes, muitos dos quais
também podiam ser cativos. Conduziam
uma pequena carroça puxada por uma
junta de bois, levando caldeirões e
mantimentos para prepararem a refeição
no campo.
As crianças, mesmo bem pequenas, muitas
vezes acompanhavam seus pais. Era comum as
mulheres carregarem seus filhos para as plantações,
podendo também os recém-nascidos
ficar na sede da fazenda sob os cuidados de
alguns velhos, aleijados ou avaliados como
incapazes para o trabalho no eito. Era, por
exemplo, a rotina das africanas Florinda,
Diolinda, Narciza, Luiza, Emerenciana e outras
tantas, que levavam seus filhos menores diariamente
para a roça. A mortalidade infantil
era altíssima e José conheceu
dezenas de crianças que não
passaram dos primeiros meses.
Na
lavoura todos eram redistribuídos em
grupos, sendo destacados para partes diversas
dos cafezais. Passava pouca coisa das seis
horas da manhã. Separados num sistema
de trabalho por "gangs" ou turmas,
denominado "corte" e "beirada",
os cativos considerados mais aptos, sempre
os jovens e mais robustos, eram escolhidos
para ditar o ritmo da colheita. Quatro trabalhadores
colocados na beirada dos cafezais, sendo o
cortador e o contra-cortador de um lado e
o beirador e o contra-beirador do outro. Os
mais velhos e lentos colocados no meio. Homens
e mulheres na mesma turma. Colhiam em média
cinco a sete alqueires diariamente. Não
demorou muito José percebeu que os
ritmos do trabalho não tinham somente
os sons do chicote e da gritaria imposta pelos
feitores. Aprendeu e logo se animava com os
vissungos, cantigas africanas. Sob formas
de versos cifrados, repetidos refrões
e com significados simbólicos, também
serviam como senhas, por meio das quais resenhavam
suas vidas e expectativas e mesmo avisavam
uns aos outros sobre a aproximação
de um feitor. O "ngoma" -como diziam-
podia estar perto. A despeito da violência
e péssimas condições,
tentar definir alguns sons e ritmos do trabalho
era uma face fundamental da organização
de suas próprias vidas escravas.
Alguns eram destacados para prepararem as
refeições coletivas no campo.
Dez horas da manh&a
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tilde; ou um pouco mais
tarde: uma pausa. O almoço. Formavam
fila em frente a um rancho improvisado que
servia de cozinha. Recebiam em pequenas cuias
refeições, constituídas
de angu -a base da alimentação
escrava- e um pouco de feijão temperado
com pedaços de toucinho e gordura de
porco. Não raro alguns legumes, como
batata-doce e abóbora, e farinha de
mandioca. Muitas escravas aproveitavam para
amamentar seus filhos. O total da pausa não
durava uma hora. Logo retornavam ao trabalho
e só bem mais tarde havia outro breve
intervalo.
Na ocasião, sem se afastarem dos locais
da colheita, recebiam um pouco de café,
substituído nos dias frios e chuvosos
por pequenas doses de aguardente. O trabalho
continuava até às 16h, quando
era servido o jantar, via de regra a sobra
do angu do almoço. Essas cenas cotidianas
foram desenhadas por Victor Frond e posteriormente
acompanharam como litografias a publicação
dos relatos de viagens de Charles Ribeyrolles.
Era
também nesse longo dia de penoso e
extenuante trabalho que os cativos, castigados
pelo sol escaldante, pelos espinhos dos arbustos
de café ou pelo chicote dos feitores
truculentos, procuravam formas diversas de
socialização. O castigo era
uma realidade que rondava. Mas aproveitando
uma fugidia frouxidão na vigilância,
conversavam a respeito de seu cotidiano, alimentando
sonhos de melhores dias. Ao escurecer, quase
às 19h nos dias de verão, preparavam-se
para voltar à fazenda. Novamente formavam
fila em frente ao terreiro e reuniam-se aos
que tinham permanecido trabalhando na sede
da fazenda. Retornariam às senzalas.
A jornada de trabalho podia continuar madrugada
adentro na separação e ensacamento
dos grãos de café colhidos.
À noite, em torno das pequenas fogueiras
que mantinham - nunca apagavam as brasas!
- no interior das senzalas, o cansaço
dominava absoluto. Uma esperança renovada
semanalmente surgia nas vésperas dos
domingos. Poderiam cultivar suas roças
próprias, produzindo alimentos para
seu consumo. Eram concessões senhoriais
que souberam transformar em conquistas e direitos
costumeiros, podendo obter recursos extras
com a comercialização dos excedentes.
Nos dias santos promoviam seus jongos e caxambus.
Alimentavam tanto seus espíritos como
os daqueles não mais presentes.
Talvez na mente destes trabalhadores escravizados
tais jornadas tenham sido longos dias-noites
que nunca terminavam.... como a história
do trabalho. Sem fim." (Flávio
Gomes é historiador e professor da
Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Publicado no jornal Folha de São
Paulo) |

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“Grande
parte da população escrava do
Rio de Janeiro acha-se empregada em serviços
domésticos, com pessoas ricas ou de
posição. É um artigo
de luxo, inerente antes à vaidade do
senhor do que às necessidades da casa.
Esses escravos usam librés fora de
moda que, acrescidas aos turbantes e penteados
esdrúxulos, fazem deles verdadeiras
caricaturas. Têm pouco trabalho, às
vezes nenhum; sua alimentação
é boa; são, em resumo seres
tão inúteis quanto os criados
dos grandes senhores da Europa (...) Os escravos
das grandes cidades, em sua maioria, são
obrigados a pagar semanalmente, às
vezes diariamente, determinada importância
a seus senhores, importância que procuram
ganhar pela prática de qualquer profissão:
são marceneiros, seleiros, alfaiates,
marinheiros, carregadores etc. Assim, conseguem
eles ganhar facilmente mais do que lhes exige
o senhor e, com um pouco de economia, em nove
ou dez anos, adquirem, sem dificuldade sua
liberdade. Se isso não acontece, tão
amiudamente quanto seria de imaginar, é
porque os negros têm predisposição
para a prodigalidade, principalmente em matéria
de roupas, de tecidos de cores vivas e de
fitas.
Dissipam,
com isso, quase tudo o que ganham. Gozam em
geral de muita liberdade e sua existência
é bastante suportável, pois
têm o dia inteiro disponível
para tratar de seus negócios, bastando-lhes
recolherem-se à noite; seus senhores
só se preocupam com eles na medida
em que se faz necessário para assegurar
a cobrança e hebdomadária. De
manhã, antes de sua partida, e de noite,
ao voltarem dão-lhes farinha de mandioca
e feijão; quanto à alimentação
do dia, cabe-lhes consegui-la. Também
se vêem mulheres escravas ganhar a vida
do mesmo modo; fazem-se amas, lavadeiras,
floristas, ou quitandeiras.
(...) Dir-se-ia que após os trabalhos
do dia, os mais barulhentos prazeres produzem
sobre o negro o mesmo efeito que o repouso.
À noite, é raro encontrarem-se
escravos reunidos que não estejam animados
por cantos e danças; dificilmente se
acredita que tenham executado, durante o dia,
os mais duros trabalhos, e não conseguimos
nos persuadir de que são escravos que
temos diante dos olhos.
A
dança habitual do negro é o
batuque. Apenas se reúnem alguns negros
e logo se ouve a batida cadenciada das mãos;
é o sinal de chamada e de provocação
à dança. O batuque é
dirigido por um figurante; consiste em certos
movimentos do corpo que talvez pareçam
demasiado expressivos; são principalmente
as ancas que se agitam, enquanto o dançarino
faz estalar a língua e os dedos, acompanhando
um canto monótono, os outros fazem
círculo em volta dele e repetem o refrão.
Outra dança negra muito conhecida é
o ‘lundu’ também dançada pelos
portugueses, ao som do violino, por um ou
mais pares. Talvez o ‘fandango’, ou o ‘bolero’,
dos espanhóis, não passem de
uma imitação aperfeiçoada
dessa dança.
Acontece muitas vezes que os negros dançam
sem parar noites inteiras, escolhendo, por
isso, de preferência, os sábados
e as vésperas dos dias santos.
É
preciso mencionar, também, uma espécie
de dança militar: dois grupos armados
de paus colocam-se um em frente do outro e
o talento consiste em evitar os golpes da
ponta do adversário. Os negros têm
ainda um outro folguedo guerreiro, muito mais
violento, a ‘capoeira’: dois campeões
se precipitam um contra o outro, procurando
dar com a cabeça no peito do adversário
que desejam derrubar. Evita-se o ataque com
saltos de lado e paradas igualmente hábeis;
mas, lançando-se um contra o outro
mais ou menos como bodes, acontece-lhes chocarem-se
fortemente cabeça contra cabeça
o que faz com que a brincadeira não
raro degenere em briga e que as facas entrem
em jogo ensanguentando-a.”
(Johann-Moritz Rugendas.
Viagem pitoresca através do Brasil.
São Paulo, Martins-EDUSP, 1972. pp.
147-157.) |
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