|
|
Bibliografia
::: Ver citações ao final de cada
documento. |
|
| |
Clique nas imagens para ampliar.
Pode haver alguma demora na abertura devido ao
tamanho das imagens. |
|
| |
|
|
|
“No Brasil, [...] o abolicionismo
é antes de tudo um movimento político,
para o qual, sem dúvida, poderosamente
concorre o interesse pelos escravos e
a compaixão pela sua sorte, mas
que nasce de um pensamento diverso: o
de reconstruir o Brasil sobre o trabalho
livre e a união das raças
na liberdade.”
(Joaquim Nabuco, O Abolicionismo,
p. 68 – 1883)
|
|
"Senhores, combatendo a
idéia da emancipação
direta perante o Parlamento, devo repelir
uma pecha que os mais intolerantes promotores
da propaganda costuma lançar sobre
aqueles que, como eu, têm levantado
a voz para protestar energicamente contra
a imprudência e precipitação
com que se iniciou esta reforma.
Chamam-nos de escravocratas, de retrógrados,
de espíritos tacanhos e ferrenhos,
que não recebem os influxos da civilização.
Procuram assim atemorizar-nos com a odiosidade
que de ordinário suscitam as idéias
condenadas, os sentimentos egoísticos.
[...]
Vós, os propagandistas, os emancipadores
a todo transe, não passais de emissários
da revolução, de apóstolos
da anarquia. Os retrógrados sois vós,
que pretendeis recuar o progresso do país,
ferindo-o no coração, matando
a sua primeira indústria, a lavoura.
[...] Não vos lembrais de que a liberdade
concedida a essas massas brutas é um
dom funesto; é o fogo entregue ao ímpeto,
ao arrojo de um novo e selvagem Prometeu.
"
(José de Alencar,
Discursos parlamentares, p. 228 – 1871) |
|
"[...]
No dia seguinte, chamei o Pancrácio
e disse-lhe com rara franqueza:
- Tu és livre, podes ir para onde quiseres.
Aqui tens casa amiga, já conhecida
e tens mais um ordenado, um ordenado que...
- Oh! Meu Sinhô! Fico.
- ... Um ordenado pequeno, mas que há
de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste
imensamente. Quando nascestes, eras um pirralho
deste tamanho; hoje estás mais alto
que eu. Deixa ver; olha, és mais alto
quatro dedos...
- Artura não qué dizê
nada, não, sinhô...
- Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis;
mas é de grão em grão
que a galinha enche o papo. Tu vales muito
mais que uma galinha.
[...]
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até
um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por
não me escovar bem as botas; efeitos
da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco,
sendo um impulso natural, não podia
anular o direito civil adquirido por um título
que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau
humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio;
daí para cá, tenho lhe despedido
alguns pontapés, um ou outro puxão
de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não
chamo filho do diabo; cousas todas que ele
recebe humildemente, e, (Deus me perdoe!)
creio que até alegre."
(Machado
de Assis, ‘Bons Dias’. In Diário
de Notícias, p. 489-491) |
|
| 13
de maio de 1888 - Petrópolis
Meus queridos e bons pais.
Não sabendo por qual começar
hoje: mamãe por ter tanto sofrido
estes dias; papai pelo dia que é,
escrevo a ambos juntamente.
É de minha cama que o faço,
sentindo necessidade de esticar-me depois
de muitas noites curtas, dias aziagos e
excitações de todos os gêneros.
O dia de trás-ontem foi um dia de
amargura para mim e direi para todos os
brasileiros e outras pessoas que os amam.
Graças a Deus, desde ontem respiramos
um pouco e hoje de manhã as notícias
sobre papai eram muito tranqüilizadoras.
Também foi com o coração
mais aliviado que perto de uma hora da tarde
partimos para o Rio a fim de eu assinar
a grande lei, cuja maior glória cabe
a papai, que há tantos anos esforça-se
para um tal fim. Eu também fiz alguma
coisa e confesso que estou bem contente
de também ter trabalhado para idéia
tão humanitária e grandiosa.
A maneira pela qual tudo se passou honra
nossa pátria e tanto maior júbilo
me causa. Os nossos autógrafos da
lei e o decreto foram assinados às
três e meia, em público, na
sala que precede a grande do trono, passada
a arranjar depois de sua partida. O Paço
(mesmo as salas) e o Largo estavam cheios
de gente, e havia grande entusiasmo, foi
uma festa grandiosa, mas o coração
apertava-se me lembrando que papai aí
não se achava! Discursos, vivas,
flores, nada faltou, só a todos faltava
saber papai bom e poder tributar-lhe todo
o nosso amor e gratidão. Às
quatro e meia embarcávamos de novo
e em Petrópolis novas demonstrações
nos esperavam, todos estando também
contentes com as notícias de manhã
de papai. Chuvas de flores, senhoras e cavalheiros
armados de lanternas chinesas, foguetes,
vivas. Queriam puxar meu carro, mas eu não
quis e propus antes vir a pé com
todos da estação. Assim o
fizemos, entramos no Paço para abraçarmos
os meninos e continuamos até a igreja
do mesmo feitio que viemos da estação.
Um bando de ex-escravos fazia parte do préstito,
armados de archotes. Chuviscava e mesmo
choveu, mas nessas ocasiões não
se faz caso de nada. Na igreja tivemos nosso
mês de Maria sempre precedido do terço
dito em intenção de papai
e de mamãe. Não são
as orações que têm faltado;
por toda a parte se reza e se manda rezar,
e esta manhã, nas Irmãs,
tivemos uma comunhão por intenção
de papai. Comungamos nós dois e umas
quarenta senhoras.
Boas noites, queridos, queridíssimos!!!
Saudades e mais saudades!!!
16 de maio
Tudo está em festa pela lei, coincidindo
com estas as melhoras de papai. Já
estivemos hoje no Paço da Cidade
para receber comissões e uma missa
na igreja do Rosário mandada dizer
pela Irmandade dos pretinhos por intenção
de papai. Reina entusiasmo grande por toda
a parte.
Adeus, meus queridos e bons pais, aceitem
mil abraços e beijos saudosíssimos
e deitem-nos sua bênção.
Sua filhinha que tanto os ama.
Isabel, condessa d'Eu
[Extraído de Paulo
Bonavides & R. A. Amaral Vieira. Textos
políticos da história do Brasil
(Independência - Império -
I). Fortaleza: Imprensa Universitária
da Universidade Federal do Ceará,
s/d, pp. 786-7.]
|
|
A ABOLIÇÃO
ABOLIU O QUÊ?
"As datas históricas têm
o sentido que cada geração,
ou cada grupo social, lhes dá. O centenário
da abolição da escravidão
tem dado margem a um grande debate em torno
do sentido do 13 de Maio. Há hoje vários
13 de Maio competindo por corações
e mentes. Há o 13 de Maio tradicional,
o da princesa Isabel, o da magnanimidade da
coroa, da doação da liberdade.
Trata-se de espécie em extinção.
Sobrevive em cartilhas escolares, na fala
de homens de governo e, queiram ou não
os militantes negros, em setores populares
da população negra. No pólo
oposto, há o 13 de Maio maldito, o
13 de Maio engodo, empulhação,
golpe branco contra o avanço da população
negra. É espécie em ascensão.
Foi gerado e expande-se especialmente dentro
dos movimentos negros. Para substitui-la na
mitologia social constrói-se outra
data histórica, o 20 de Novembro, morte
de Zumbi. Enfim, há o 13 de Maio crítico,
espécie também em ascensão.
O valor positivo da data é mantido
mas sob luz diferente. A ênfase deixa
de cair sobre a ação da princesa,
ou do governo em geral, e se transfere para
o movimento popular, aí incluída
a reação dos próprios
escravos. Em vez de doação real,
a data é vista como conquista popular.
Tal versão germina nos meios acadêmicos
envolvidos na revisão da historiografia
da escravidão. (...)
A primeira versão deve ser deixada
morrer em paz. A segunda estabelece oposição
falsa entre o 13 de Maio e o 20 de Novembro,
ao caricaturar o primeiro e mitificar o segundo.
A terceira abre perspectivas de debates que
me parecem mais promissoras se o problema
negro for visto, como creio dever ser, como
problema nacional e não apenas como
dizendo respeito a minoria oprimida. Mas na
revisão do sentido da data é
preciso ir além da estéril dicotomia
doação-conquista. É preciso
explorar outros sentidos que tornem o 13 de
Maio mais inteligível e mais relevante
para os dias de hoje.
O entendimento da abolição no
Brasil pode ser facilitado pela comparação
com outros processos abolicionistas. Pelo
contraste que apresenta, usarei aqui o caso
americano. Há diferenças entre
os casos brasileiro e americano que têm
sobrevivido ao revisionismo histórico.
Talvez a diferença mais saliente e
mais relevante esteja no caráter de
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
polaridade e de conflito que marcou a abolição
nos Estados Unidos em contraste com a lentidão,
a ambigüidade e a menor presença
de conflito no processo brasileiro. Creio
que tal diferença está na raiz
da distância que separa hoje, em termos
de educação, ocupação
e renda, as populações negras
americana e brasileira. Daí sua importância
teórica e prática.
De onde vem a diferença? Havia nos
Estados Unidos, antes da abolição,
uma polarização, uma divisão
clara entre norte e sul, entre uma sociedade
em que predominavam, apesar do racismo, valores
liberais ou até mesmo, em alguns setores,
libertários, e uma sociedade escravocrata.
O escravo que fugia para o norte fugia para
fora da sociedade escravista, para usar expressão
de Eduardo Silva. O norte era o grande quilombo
negro, assim como fora um grande quilombo
branco formado por vítimas da perseguição
religiosa na Inglaterra. Quem fugia para o
norte ingressava em um mundo que, pelo menos
em potencial, fornecia os valores e os instrumentos
políticos para a formação
de um cidadão.
Não assim no Brasil. Aqui nem mesmo
os quilombolas fugiam
para fora da sociedade escravista. Mantinham-se
em contato com essa sociedade seja pelo comércio
de mercadorias, seja pelo comércio
de valores. Sabe-se, por exemplo, que mesmo
em Palmares, símbolo atual da libertação
negra, havia escravos. Os escravos que, às
vésperas da abolição,
fugiam para as cidades também permaneciam
dentro do sistema. Apenas se deslocavam dentro
das entranhas do monstro. Os que fugiam para
o Rio de Janeiro, para a capital do Império,
no máximo conseguiam atacar-se na cabeça
do monstro.
A importância disto é muito grande.
A impossibilidade de fuga para fora alterava
o sentido da abolição. Pois
qual era a sociedade dentro da qual permaneciam
escravos e libertos? Qual era a sociedade
da qual era impossível fugir? Era uma
sociedade marcada por valores de hierarquia,
de desigualdade; marcada pela ausência
dos valores de liberdade e de participação;
marcada enfim pela ausência da cidadania.
Era uma sociedade em que a escravidão
como prática, senão como valor,
era amplamente aceita. Possuíam escravos
não só os barões do açúcar
e do café. Possuíam-nos também
os pequenos fazendeiros de Minas Gerais, os
pequenos comerciantes e burocratas das cidades,
os padres seculares e as ordens religiosas.
Mais ainda: possuíam-nos os libertos.
Negros e mulatos que escapavam da escravidão
compravam seu próprio escravo se para
tal dispusessem de recursos. A penetração
do escravismo ia ainda mais fundo: há
casos registrados de escravos que possuíam
escravos. O escravismo penetrava na própria
cabeça escrava. Se é certo que
ninguém no Brasil queria ser escravo,
é também certo que muitos aceitavam
a idéia de possuir escravo. (...)
O 13 de Maio não deve ser descartado
porque teve sentido positivo. Não pode,
por exemplo, ser comparado com as proclamações
da independência e da república
a que o povo assistiu bestializado. O 13 de
Maio foi o coroamento da primeira mobilização
nacional da opinião pública,
mobilização a que aderiram escravos,
libertos, estudantes, jornalistas, advogados,
intelectuais, empregados públicos,
setores do operariado. Como tal, sua importância
não pode ser ignorada. Mas, como vimos,
em termos dos resultados, a abolição
aboliu muito pouco. A distância que
separava o ex-escravo da condição
de cidadão era enorme, como continua
enorme até hoje a distância que
separa a população negra da
mesma condição.
José Bonifácio, em sua justamente
famosa representação à
Assembléia Constituinte de 1823, chamou
a escravidão de cancro mortal que ameaçava
os fundamentos da nação. A abolição
veio demonstrar que o cancro é mais
profundo, que a metástase atinge o
corpo inteiro da nação. Ele
tem a ver com os valores hierárquicos
e sua carga de preconceitos que estruturam
nossa sociedade, bloqueiam a mobilidade, impedem
a construção de uma nação
democrática. A batalha da abolição,
como perceberam alguns abolicionistas, era
uma batalha nacional. Esta batalha continua
hoje e é tarefa da nação.
A luta dos negros, as vítimas mais
diretas da escravidão, pela plenitude
da cidadania, deve ser vista como parte desta
luta maior. Hoje, como no século XIX,
não há possibilidade de fugir
para fora do sistema. Não há
quilombo possível, nem mesmo cultural.
A luta é de todos e é dentro
do monstro. "
José Murilo
de Carvalho, publicado no jornal Folha de
São Paulo |
|
|
|
 |
 |